Bolhas.

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Bolhas. Eu poderia falar sobre muitas bolhas. As bolhas que se formam nos pés quando a gente usa sapato apertado, as bolhas doloridas e ardidas oriundas de queimaduras de segundo grau. As bolhas de sabão, de plástico, as bolhas de café quente que se formam no canto da xícara, mas as bolhas pautadas hoje não são essas. São outras. São abstratas, espessas e, sobretudo, prejudiciais. São bolhas que se enlaçam e complementam. Ninguém as enxerga, mas os mais atentos as sentem. Então, cinco minutos de atenção:

 A primeira bolha a ser abordada se tivesse cor seria a sua, se tivesse cheiro seria o seu, se falasse teria suas marcas linguísticas, gírias, pausas, tom e, caso se vestisse, usaria suas roupas desgastadas combinadas sem muito sucesso. Essa bolha seria você em toda e qualquer segmentação. Por que? Porque essa bolha é a bolha do individualismo; um infortúnio que engloba um por um separadamente e minimiza todo e qualquer contato ou troca. Não se fundem os risos e não se esbarram as ideias. A vantagem que os englobados ressaltam com orgulho é a segurança; desse jeito ninguém fere, afinal, ninguém se mistura, está aí também a maior desvantagem… Como se construir usando como alicerce, material e mão de obra o que apenas o seu eu oferece? 
A bolha do individualismo gera personalidades egocêntricas prontas para desmoronar caso sintam o impetuoso vento alheio e, por isso, o evitam ao máximo, se arrastam embolhadas por toda parte. Uma pessoa bolha é um profissional bolha, uma estudante bolha, um filho bolha e também, é claro, um turista bolha.
 O turista bolha se arrasta mundo a fora venerando sua cultura como se essa fosse certa e absoluta, faz careta para o que soa diferente e evita a vivência local. Ele quer ir para contar que foi, tirar boas fotos (#claro) e, talvez, observar um tanto, porém, sem foco reflexivo, esse não existe numa atmosfera singular, mas ora, o turista bolha tem um impasse; ele não é autossuficiente ou autótrofo, terá que se hospedar, se alimentar em algum lugar e aqui entra o  segundo tipo de bolha a ser pautado; os espaços bolha
Um turista bolha procura um restaurante bolha- uma rede de fastfood muito provavelmente – onde pede o lanche bolha e desfruta do sabor delicioso do padrão, com molho de mais do mesmo e, assim, entre tantas bolhas, a viagem  se resume a bulhufas!
  Com os hotéis também pode acontecer assim, quem nunca ouviu falar das redes hoteleiras com filiais por todo mundo? É evidente que os espaços bolha oferecem a garantia de fazer a escolha “correta”. A vantagem de já conhecer o produto, praticamente, extermina a chance de erro, mas viajar 2353454 km para GARANTIR?  Suaves parcelas de 12 vezes com juros no cartão, 10 horas de voo, 4 escalas, 3 ônibus  para não se deixar envolver pelas possibilidades locais? Passar pelo porre de arrumar as malas para não se permitir experimentar? 
      Mario Quintana dizia que viajar é trocar a roupa da alma… O turista bolha não troca nem o número do combo do McDonald’s. Não dá. “Ah, mas eu amo de Big Mac,  dois hambúrgueres, alface e mais umas coisas aí farão minha viagem mais feliz”, me sinto, então, na obrigação – de um jeito um pouco torto – parafrasear Bukowski. O velho alemão dizia assim “O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.”
 Pense em todos os sabores, ritmos, formas, sensações, ambientes que a gente nunca conhece, mas se conhecesse, ah! A rendição seria fácil! Levar na mala o desprendimento, a disposição não pesa nada.
 Entendeu? Reparou também quantas vezes eu usei a palavra bolha nesse texto? Muitas, né? Cansativo. Eu sei.
Então, estoureEstoure todas e não precisaremos falar mais disso! 

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Sobre o autor

Hadassa Paravizo

Graduanda em Lazer e Turismo pela EACH - USP