Chegou o verão em Paris!

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Chegou o verão em Paris! Mas isso já não é mais novidade. A França já está tomada por turistas*, por pique-niques, por taças de rosé, melões cantalupos e frutas vermelhas, sorvetes, bom-humor. Bom-humor. Em Paris, os metrôs e os ônibus já estão quentes demais e colocam à prova o desodorante (ou a falta de) das pessoas. Mas temos o sol, os parques, os amigos, todo um art de vivre da estação… Sem contar as férias que se aproximam (aliás, em agosto, não restam parisienses em Paris).

PIQUENICAI UNS COM OS OUTROS

Os franceses são tão mestres na arte de fazer piqueniques que existe até um verbo para isso – pique-niquer. Em um fim de tarde ou uma soirée de verão, reunir os próximos em torno de comida e bebida em um dos parques da cidade ou à beira do Sena ou dos canais é a coisa a se fazer. Normalmente, além dos pães, dos queijos, dos frios, dos vinhos e sucos frescos, as pessoas carregam tupperwares de bolos, saladas, tortas e todo tipo de quitute. Levam talheres e pratos e copos transportáveis. E jamais esquecem a toalha.
O piquenique no verão é uma das formas de ocupar e de compartilhar o espaço público da cidade. Além de celebrar a própria estação, é um modo de viver a cidade, de se inscrever nela. É como andar de bicicleta pelas ruas (dirijo-me aqui aos conservadores histéricos sem causa de São Paulo). Para os brasileiros, o piquenique torna-se uma ótima oportunidade para se experimentar outra relação com o espaço público, para se experimentar o espaço público, ao contrário das formas de privatização que se praticam no Brasil. Uma vez na França, então, faça como os franceses. Vá ao supermercado, traga uma boa e velha canga, encontre um espaço na grama e piquenique.

A TEMÍVEL CANICULE

verão em paris

O risco da canicule!

O verão, porém, é a época da canicula. Todo ano, ondas de calor insuportável fazem o país decretar zonas de alerta e colocar em alerta a população inteira. Faz uma semana que as manchetes anunciam o acontecimento. “É a canicula”, declarou meu namorado hoje de manhã. “Ai, não sei o que vou fazer nessa semana de canicula”, disse-me uma amiga, “vou tentar ficar em casa com meu ventilador”. Salve-se quem puder. Segundo o Monde, o governo prometeu uma mobilização de espaços públicos climatizados. Sério. Parece piada para quem vive na canicula em certas regiões do Brasil, ainda mais no verão. Mas o fato é que a canicula faz muitas vítimas, sobretudo idosos (dizem que durante a terrível canicula de 2003 foram vinte mil mortos só na França). Por isso ela te torna uma preocupação anual. Se você vier à Europa no verão e decidir fazer turismo em centros urbanos sob o sol escaldante, traga chapéu e carregue consigo um litro de água (olha, até parece guia de turismo de verdade!).
Na próxima coluna prometo abordar um assunto mais urgente em relação ao estado do mundo. Mas agora vou falar sobre o mercado de pulgas de Saint-Ouen.

O PARADOXO DAS PULGAS CARAS

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Fotos antigas no mercado de pulgas de St. Ouen | Foto: Bia Rodovalho

No fim de semana passado revisitei o lugar com amigos. O marché aux puces de Saint-Ouen é o mais célebre mercado de pulgas de “Paris”. Se você chega pelo metrô Porte de Clignancourt, você deve atravessar uma grande 25 de março, mas pior, porque pelo menos possuímos os códigos para decifrar e navegar as ruas da 25. E os vendedores são, de fato, predadores.
O mercado é, na verdade, um conjunto de mercados que se organizam em torno da Rue de Rosiers. Ele é frequentado por turistas e por compradores e colecionadores de antigüidades ou de arte contemporânea – tipos peculiares que cultivam grandes bigodes, suspensórios e outros hábitos que (provavelmente) não são os seus. Muitas dessas antiguidades incluem móveis e roupas de estilistas. Por isso, não ache que você vai conseguir chiner muita coisa (encontrar objetos de ocasião em mercados de pulgas ou feiras). Mesmo os objetos comuns a todas as brocantes (feiras de coisas de segunda mão), como brinquedos velhos, fotos de família esquecidas, louças, vinis, livros, cartazes… são mais caros.

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Mercado de pulgas de St. Ouen | Foto: Bia Rodovalho

Quem vai ao mercado para comprar é porque procura algo específico, como poltronas do século XVIII que custam mais de 10.000 euros ou uma mesa de madeira do século XIX, ou quem sabe um Yves Saint Laurent de algumas décadas atrás. Ao lado da rua principal, porém, o espírito 25 de março se espalha, e lá se vendem roupas e tênis “de marca”, como “Nyke”. Atravessa-se uma rua e encontra-se outro mundo.
Evidentemente, o mercado já passou pelo processo de atrair gente descolada e gourmet e possui alguns restaurantes nesse sentido, como um “food market”. Se você for desses, fear not, my friend, você não vai precisar comer um crepe feio ou um panini com “refri”.
No mercado, no entanto, ver todo esse universo é que é a maior atração.

*Turistas demais, meu Deus, tantos turistas. Se você quiser aproveitar Paris com temperaturas agradáveis e com menos turistas (sabendo que sempre vão ter muitos), venha no final de maio até quase o fim de junho, ou em setembro. Mas eu não posso garantir nem calor nem dias de sol. O aquecimento global é uma realidade.

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Sobre o autor

Bia Rodovalho

Brasileira, 29 anos, pediu asilo político na França. Foi parar no subúrbio de Paris. É gauche na vida, feminista e portadora de SII. Pratica yoga às segundas-feiras com um grupo de aposentados. Sua persona acadêmica é mais séria que isso. Bia Rodovalho não é cool.