Descruza os braços

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O litoral amanhaceu feio. Corrija essa fala, me disse sem nem sequer olhar para minha cara. O litoral não amanheceu do jeito que eu queria. Melhor? Melhor, bem melhor e, agora, descruza os braços – dessa vez me olhou para assegurar que as minhas mãos estavam soltas e balançando.
Ela acreditava fielmente que a beleza existe em tudo, tanto no bem, quanto no mal, tanto nos dias de sol quanto nos dias nublados, igualzinho Charlie Chaplin e jamais me deixaria cuspir reclamações sobre um final de semana só porque os tons de cinza sobressariam aos tons de azul.
Era proibido também dizer que algo deu errado. Não deu errado, deu diferente, ela dizia, a gente nunca sabe qual é o certo e finalizava sempre com: descruza os braços.
Mas naquele dia, eu sinto muito, não tinha como, o litoral realmente acordou feio, parecia que alguem tinha tragado um baseado, um cigarro, um charuto, tudo junto e bem forte, forte mesmo e soltado ali toda a fumaça, era uma neblina absurda, um vento gelado insuportável, eu não conseguia fazer nada além de me arrastar pela casa de móveis antigos reclamando baixinho por ter gasto 42,50 em um protetor solar que não iria usar.
Foi, então, quando eu estava rodeando o sofá amarelo, meio-que-afofando-meio-que-esmurrando suas almofadas velhas que ela me pegou pelo braço, me mandou vestir um casaco e disse que a gente ia dar uma volta.
Que casaco? eu quis saber, eu tinha vários casacos.
Coloca um casaco que não se importe que encha de grãos de areia, nos vamos sentar em frente ao mar até você perceber algumas coisas, e descruza os braços.
Perceber que coisas? Eu nem to de braços cruzados
Por dentro, eu  estava sim.
Nos fomos e sentamos, do jeito que ela havia dito. Foram três longas horas até que eu começasse a reparar em algumas das tais coisas, por exemplo que o céu beija as àguas em um beijo que nunca acaba.
Foram longas três horas para perceber que o enlace desses gigantes escapa da efemeridade qual nos não espacamos e nossas realções também não. Ou então que as ondas do mar parecem um eterno gif, o melhor gif que merecia o maior número de likes e compartilhamentos possíveis.
Ela me obrigou a respirar a maresia, a tirar o tênis, a meia, o mau humor e afundar os pés na areia, me me pediu pensar nos versos de Cecília que na época eu sequer conhecia. E falou algo sobre se sentir pequeno diante da grandeza e força das àguas, mas se sentir forte porque, de um certo modo, integramos tudo isso e de repente, mas também pouco a pouco, o vento gelado não era insuportável, era revitalizante. Era como olhar um quadro, o maior quadro do mundo e foi assim, navegando em um mar de pensamentos, que mesmo sem o sol estar presente, senti meu coração arder.
Tudo realmente era uma questão de percepção.
É por isso que o feriado com frente fria não me assusta, aborrece um pouco – confesso, mas eu fui acostumada a olhar por um outro ângulo as paisagens, a rotina e a vida.
Saber gostar de dias nublados também é saber amar naqueles dia que a pessoa tem uma espinha no meio da testa, mau hálito e uma chatice que parece crônica. Saber não se entristecer com a chuva é saber não desanimar com as broncas pesadas que vez ou outra caem sobre a gente, mas aprender com tudo que vem, tendo a certeza que uma hora ou outra o tempo abre.

Não se pode levantar da cama só nos dias ditos bons. Calor ou tempestade, estende a canga, descruza os braços, chega de viver pela metade.

 

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Sobre o autor

Hadassa Paravizo

Graduanda em Lazer e Turismo pela EACH - USP