Continue a pedalar

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Bicicleta em Turim | Foto: reprodução

A grama do vizinho é sempre mais verde. Se essa grama é de um lugar Instagramável com um destino que exigiu um carimbo no Passaporte para chegar, ela é verde-fosforescente e brilha no escuro. Acompanhando a batida da música que embala uma festa de arromba ao ar-livre.

Esse efeito acontecia comigo quando acompanhava alguém compartilhando sua rotina no além-mar do Atlântico brasileiro. Pensava: “sorte tem fulano, que mora fora e não convive com esse problema”.

Há algumas colunas contei por aqui a epopeia de trazer minha querida bicicleta da Austrália para cá. Bom, recentemente o resultado desse esforço foi-se embora em menos de 20 minutos de descuido. Ela foi roubada.

O termo correto é furto. Afinal, não fui apresentado a nenhum revólver ou faca trêmula de ódio. Tudo indica que esse tipo de B.O. é raro por aqui. Mas deixou a mesma sensação de impotência, raiva e tristeza das vezes no Brasil que tive que entregar algo que ralei para ter ao ser coagido por um cano encurtador de vidas.

Ironicamente, um dos maiores clássicos do cinema italiano é o “Ladri di Biciclette”, de Vittorio De Sica. Estava enrolando para assisti-lo, até ter uma première exclusiva em uma manhã de terça-feira.

Foi nela também que descobri que existe uma praça com um conhecido mercado de bicicletas roubadas. O chamado “paralelo” que talvez em algum momento no Brasil você já ouviu como opção para comprar uma peça.

E quem me contou isso foi o próprio policial (!) na delegacia, sugerindo que eu poderia encontrar a Sheila por lá. Sim, ela tinha nome. Talvez por isso que a experiência toda doeu ainda mais e preencheu essas linhas. Nunca dê nome a um objeto, vai ser pior se levarem ele para comprar cigarros.

Saí da delegacia resignado. A opção de comprar de volta algo que já era meu soou ilógica. E errada.

Um dos hábitos do expatriado que definha com o tempo são as comparações com o Brasil. Teria sido diferente? Mais escancarado? Jamais acontecido? Ou eu nem teria saído de casa com ela e evitado tudo? São perguntas tão vazias quando o lugar que a tinha travado com o cadeado.

Calma. Nem a anos-luz, a Itália perdeu seu charme. Só me deu um leve sacode de realidade. A primeira vez por aqui que senti um gosto amargo. Vi que não estamos a salvo de baixar a guarda. Que investir em algo que você gosta exige sempre cuidado redobrado, não importa onde.

Morar fora não é garantia de ausência dos problemas que infelizmente nos habituamos a conviver no Brasil. É uma substituição por outros. Ou pelos mesmos, em maior ou menor grau.

A grama por aqui continua verde. Muito verde. Ainda mais com uma toalha estendida, com embutidos, pães e queijos variados e uma brejinha para acompanhar tudo isso. E claro, com minha bicicleta muito bem presa, pelo quadro, não pela roda. Cazzo.

 

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Sobre o autor

Fábio Lattes

Um franco-campineiro se aventurando nesse mundão em cima de um teclado. Autor da coluna Ciao!, onde conta sobre suas experiências em Turim, na Itália.