Segunda de Inspiração | Crônica de Verissimo

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A nossa nova coluna “Segunda de Inspiração” chega com o objetivo de dar outra cara ao começo da sua semana! Reflexão, leveza e um olhar diferenciado sobre o mundo das viagens. A segunda-feira não precisa ser chata sempre, vem descobrir isso com a gente! Hoje, a crônica  bem humorada de Luis Fernando Verissimo.

Emergência

É fácil identificar o passageiro de primeira viagem. É o que já entra no avião desconfiado. O cumprimento da aeromoça, na porta do avião, já é um desafio para a sua compreensão.

      – Bom-dia…

      – Como assim?

     Ele faz questão de sentar num banco de corredor, perto da porta. Para ser o primeiro a sair no caso de alguma coisa dar errado. Tem dificuldade com o cinto de segurança. Não consegue atá-lo. Confidencia para o passageiro ao seu lado:

— Não encontro o buraquinho. Não tem buraquinho?

    Acaba esquecendo a fivela e dando um nó no cinto. Comenta, com um falso riso descontraído: “Até aqui, tudo bem.” O passageiro ao lado explica que o avião ainda está parado, mas ele não ouve. A aeromoça vem lhe oferecer um jornal, mas ele recusa.

     — Obrigado. Não bebo.

     Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar voo, ele é aquele com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! no rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela. Mas o pior está por vir. De repente, ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz. “Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás.”

     — Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.

Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.

     – Isto é apenas rotina, cavalheiro.

     – Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai, meu santo.

     “No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos.”

      — Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?

    “Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente.”

     — Respirar normalmente?! A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças — e ele quer que a gente respire normalmente.

      “Em caso de pouso forçado na água…”

       — O quê?!”

      …os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e…”

— Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!

    – Calma, cavalheiro.

       – Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!

       – Cavalheiro, por favor. Fique calmo.

        – Eu estou calmo. Calmíssimo. Você é que está nervosa e, não sei por quê, está tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que, aliás, também parece consternado e levemente azul.

        – Calma! Isso. Pronto. Fique tranquilo. Não vai acontecer nada.

        – Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante.

        – Certo. Ninguém mais vai falar em banco flutuante.

       Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a respiração, e pede desculpas. Perdeu a cabeça.

       — É que banco flutuante é demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado. Fazendo sala no meio do oceano Atlântico!

        A aeromoça diz que vai lhe trazer um calmante e aí mesmo é que ele dá um pulo:

        — Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa!

       Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Ele fica rígido na cadeira. Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço. Pergunta se pode receber a sua comida em dinheiro. Deixa cair a cabeça para trás e tenta dormir. Mas, a cada sacudida do avião, abre os olhos e fica cuidando a portinha do compartimento sobre sua cabeça, de onde, a qualquer momento, pode pular uma máscara de oxigênio e matá-lo do coração. De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.

       — Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo. Neste momento, à nossa direita, podemos ver a cidade de…

       Ele pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto:

       — Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!

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