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Dificuldades na estrada: viajar é tão simples quanto parece?

Viagem, já faz um tempo, não é só associada a férias, descanso, conhecer lugares incríveis. Viajar é se conhecer melhor, é perceber a relação entre você e o mundo, é ultrapassar as fronteiras invisíveis que cercam a nossa vida quando ela é vivida de um jeito, digamos, convencional. E eu não poderia concordar mais com tudo isso – afinal, não me joguei nessa nova experiência de vida porque queria deixar meu Instagram mais bonito.Mas, à reboque desse novo olhar sobre viagens, também vêm uma série de sites, blogs e pessoas falando do tema como se fosse a solução dos problemas para toda e qualquer pessoa. E, pior, como se viajar fosse tão fácil quanto preparar um ovo mexido*. Particularmente, não concordo com nenhuma das duas visões, mas é sobre a segunda que espero transmitir aqui uma visão realista: as dificuldades na estrada.

Entendo que talvez isso não fosse exatamente o que você gostaria de ouvir (ou ler). E inclusive peço desculpas se frustrei seus planos coloridos para o próximo verão – ou o próximo ano, se seus planos forem mais arrojados. Mas deixo nas suas mãos a decisão de parar por aqui ou entender o meu ponto de vista. Pode ser que, assim, você esteja escolhendo quando se frustrar: agora, quando ainda há tempo para se antecipar às dificuldades na estrada, ou lá na frente, durante a viagem, quando as coisas não saírem exatamente como você imaginou e talvez seja tarde para corrigir a rota dos acontecimentos.

IMPORTANTE: esse não é um texto para desincentivar, mas para alertar sobre o que pode vir pela frente, para que você não apenas se prepare, como para que entenda os seus limites e perceba se deve, ou não, ir em frente. E para isso, lanço mão das minhas experiências pessoais, principalmente no último ano, em que estive, durante o tempo todo, na estrada. Isso significa que nem todas as possibilidades estarão contempladas, afinal as pessoas são diferentes e o que é difícil para mim, pode não ser para você. Mas espero que, ao chegar ao final, você possa refletir sobre o que faz sentido para o seu caso.

AS DIFICULDADES NA ESTRADA COMEÇAM MUITO ANTES DO DIA DE EMBARQUE

Afinal, quem nunca pastou pra decidir para onde ir que atire a primeira pedra. E fique à vontade para jogar uma bigorna, se depois de escolher o destino você jamais saboreou da sensação de ser incapaz de chegar até lá – seja porque o trajeto envolve um ônibus, um barco e um jegue, seja porque o preço daquela passagem simplesmente não faz sentido. E também não deixe, por favor, de contar a fórmula mágica do sucesso nos comentários aqui embaixo (se não ficar à vontade para compartilhar assim, tão publicamente, meu e-mail é rapha@mundoplot.com.br).

Bom, mas aí você luta contra as incertezas, usando a internet como sua principal aliada, muito embora ela às vezes se pareça mais com um inimigo, e entende como chegar lá. Fechou? Não, não fechou, você ainda tem uma lista enorme de coisas para saber e/ou decisões para tomar. Vou citar alguns exemplos: descobrir como estará o clima, decidir que mala levar, escolher tudo o que vai entrar na mala, perceber que não sabe e recomeçar; entender se precisa de visto, como fazer para consegui-lo e pesquisar onde raios fica esse tal consulado; fazer as contas de quanto você vai/pode gastar, sendo que você não tem a menor ideia se vai querer comer um sanduíche da loja de conveniência ou o prato mais fino e requintado da culinária local, trocar dinheiro e ficar naquela dúvida do inferno sobre levar dólares ou desbloquear os cartões ou contratar um travel money ou tudo-isso-ao-mesmo-tempo porque assim você distribui (?) os gastos.

Eu poderia escrever um texto do tamanho de uma monografia sobre tudo o que você vai ter que organizar, mesmo que seu estilo seja “desplanejado”, mas (dizem) a internet não é lugar para textos longos, então deixa sua imaginação completar a lista. Você pode, claro, contratar uma agência para resolver uma parte (oportunidade de jabá identificada, clique aqui para conhecer nossos serviços), mas ainda assim terá trabalho – e se a agência disser qualquer coisa diferente disso, como “fique tranquilo, querido, você só precisa (pagar e) embarcar”, desconfie.

MAS SE EU ME DEDICAR AO “PRÉ”, NÃO VOU TER TRABALHO NO “DURANTE”, CERTO?

Errado. Ou melhor: não dá pra saber, afinal, como prever os imprevistos? No meu caso, eles sempre acontecem: já fiquei ilhado mesmo tendo um barco fechado só para o meu grupo de amigos; já me vi sem um centavo no bolso e com o cartão bloqueado em um dia que era feriado no Brasil; já perdi muitas (incontáveis) coisas; já tranquei a chave do meu carro alugado para dentro, no meio de um lugar remoto; já me machuquei bêbado, já me machuquei sóbrio, já me machuquei sem sequer perceber; já cheguei a um hotel que estava reservado e pago, mas que não tinha vaga para mim.

Eu diria que Murphy é um dos meus principais companheiros de viagem e devo admitir que gosto dele. Aprendo – e me divirto – muito com cada episódio desses. Mas nem todo mundo vê (e lida) da mesma forma. Portanto, mais do que estar preparado para imprevistos, é preciso medir os riscos que fazem parte das suas decisões. Seja sábio com relação às suas expectativas e evite possíveis frustrações. Ou, de maneira mais prática, se você não suporta insetos, não vá se embrenhar em uma floresta cujos habitantes sequer tomarão conhecimento do repelente potente de embalagem preta que você comprou. Eles vão te picar, você vai ficar puto e provavelmente encher o saco de quem estiver nessa com você.

OU SEJA, A PARTE BOA, ENTÃO, É VOLTAR PRA CASA?

Há quem diga que sim, mas não é o meu caso. Sempre, depois de todas as vezes que viajei, lutei contra o que é chamado por aí de “depressão pós-férias”, aquele momento em que você se vê de volta à sua baia, com seu computador e suas miniaturas do McLanche Feliz, mas não consegue se situar e entender porque passou tão rápido. Mas, pelo menos no meu caso, o tarja preta mais eficiente que encontrei foi começar, o quanto antes, o planejamento da próxima.

AS DIFICULDADES NA ESTRADA ELEVADAS A MUITAS POTÊNCIAS

Muitas das pessoas que definem as viagens como a salvação para uma vida infeliz são partidárias de longas jornadas, que vão desde um ano sabático até uma vida integralmente nômade. As duas coisas são, realmente, incríveis, apesar de não darem garantias de que você vai encontrar o que busca/precisa. E, vale dizer, se viajar por um mísero feriado de quatro dias dá trabalho, imagina fazer isso por um ano inteiro.

Conto aqui algumas das coisas que, depois de sete meses pulando de galho em galho asiático, são as responsáveis pelo cansaço que sinto, que apesar de ser algo minúsculo em comparação à felicidade e realização por viver essa experiência, existe – e se alguém disser que não sentiu nem uma pontinha de cansaço, eu truco.

O planejamento never (ever) ends, já que, diferente das férias de um mês, não dá pra pensar em 12 meses de viagem de uma vez, muito menos pra seguir com os planos que nasceram antes de tudo começar. Mudamos de ideia quase com a mesma frequência que mudamos de traje de banho e a cada vez é preciso replanejar.

Minha vida cabe em uma planilha, afinal temos uma verba total, que vira mensal, que vira semanal e que vira diária, para que possamos saber, na ponta do lápis, quanto podemos gastar e se vamos, ou não, ter que abrir mão daquilo que queríamos muito fazer. Cada centavo gasto pra ir ao banheiro da rodoviária conta e precisa ser planilhado, então imagina a nóia.

Minha vida (e a da Manu, porque só temos uma para os dois) também cabe em uma mochila, porque mudando de lugar quase semanalmente não dá pra carregar muita coisa. Então, imagine a quantidade de vezes que arrumamos e desarrumamos essa mochila, colocamos e tiramos das costas, do bagageiro, da cabeça na hora de entrar até a cintura na água para chegar ao barco e do colo quando esse é o único espaço disponível para ela no transporte. Nessa hora, repito o meu mantra “seria pior se fosse uma mala de rodinhas”, enquanto vejo que o perrengue de quem tem uma dessas é muito maior.

Tenho saudades e não me importo em admitir. Inclusive, desconfio de quem faz o filho-de-chocadeira e diz que não sente, nem um pouco de saudades, de nada. Nem de coxinha e feijão? Sério, duvido!

Sinto falta de um idioma comum, porque às vezes a comunicação é complicada (sem generalizar, claro, porque muita gente fala inglês). E aí, isso tem, para mim, dois principais desdobramentos: eu, perdido, sem entender o que aquela pessoa está tentando me explicar em tailanglês; ou eu (de novo), sem conseguir desenvolver conversas em profundidade com pessoas que, tenho certeza, teriam coisas muito interessantes para me contar.

Virei dependente do Google Maps, mais até do que era quando dirigia e precisava do Waze, porque como nos mudamos com muita frequência, estamos sempre em um novo processo de reconhecimento da área. E na maioria das vezes, quando nos adaptamos e aprendemos como chegar a algum lugar sem ter que se preocupar com o caminho, já está na hora de partir e recomeçar, de novo.

MAS, AFINAL, TUDO ISSO VALE A PENA?

Sou suspeito pra falar, mas acredito fortemente que sim – e muito! Além da possibilidade de conhecer lugares novos e culturas diferentes, passar por essas dificuldades na estrada é um aprendizado enorme sobre você mesmo, seus limites e padrões de reação. Mais que isso, é uma oportunidade incrível de sair da bolha, pra perceber que nem tudo funciona como no seu bairro, nem todas as pessoas são como você e o seu grupo de amigos, nem tudo está sob controle e ainda bem.

(*) Esquente uma panela ou frigideira com um pouquinho de manteiga ou azeite, quebre o ovo lá dentro, coloque sal (e pimenta, se quiser) e mexa, até virar o ovo mexido que você conhece. Tão simples quanto isso, mas você pode até aprimorá-lo com cebola, alho, um tomatinho picado ou o que estiver na sua geladeira.

Rapha Rotta
Sócio-fundador da Plot, namorado da Manu, libriano indeciso e a cada dia mais asfaltofóbico. É apaixonado pelo mundo desde que consegue se lembrar e não consegue se sentir tranquilo sem saber quando será a próxima viagem.

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