Doente em Paris, ou: um post sincero sobre a natureza humana

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VAMOS FALAR DE DOENÇA

Eu ia falar do 14 de Julho para vocês, mas estava com febre e vi os fogos de artifício pela televisão.

Vamos então falar de um assunto ao qual eu dedico bastante tempo: doenças. Eu tenho várias – crônicas, passageiras, inexplicáveis, autoimunes, psicossomáticas… Eu adoro pesquisar sobre doenças no Google e aprendo muito com Grey’s Anatomy. Considero-me, digamos, uma médica amadora. Eu adoro me autodiagnosticar e diagnosticar os outros antes do diagnóstico do médico só para ver se eu estava certa.

Apesar de ter sido uma criança asmática, quando eu morava no Brasil, eu não tinha uma gripe sequer. Eu circulava pelos estúdios empoeirados da ECA e não dava um espirro. Quando eu vim morar na França, tudo mudou. (Doutor Freud pode ter uma ótima explicação para isso, mas deixem para lá). Eu comecei a ter uma alergia de pele, eu redescobri a asma alérgica, eu desenvolvi síndrome do intestino irritável, eu tive um espécie de zona na testa, eu tive uma nefrite, eu tive uma infecção intestinal por clostridium difficile que foi, amigos, DIFFICILE. Eu passei uma noite internada por isso e ganhei de presente uma colite semi-crônica. Essa semana mesmo, eu tive uma virose. Enfim, são tantas emoções.

Então, o que fazer quando você fica doente na França?

  1. Se você julgar que não há necessidade de ver um médico, vá a uma farmácia. Aqui, os farmacêuticos podem orientar e até indicar medicamentos que não precisam de ordonnance (receita médica). A maioria das farmácias fecham no domingo e não ficam abertas 24h. Por isso, é preciso consultar a agenda das “pharmacies de garde” (farmácias de plantão). Apenas algumas farmácias em Paris (intramuros) são abertas 24h – veja a lista aqui.
  2. Se for um caso médico, mas não uma urgência, o melhor é ligar para seu seguro, que irá encaminhá-lo a um médico. Pode-se também ir ao pronto-socorro de um hospital (sabendo que a espera pode ser grande se não se tratar de um problema grave).
  3. Se for um caso médico, mas o doente não consegue se deslocar, é preciso ligar ao SOS Médecins: 01 47 07 77 77 ou 3624. Este é um serviço de médicos em domicílio.
  4. Se for o caso de ir ao pronto-socorro de um hospital, . Veja alguns na lista abaixo.
  5. Se for uma urgência, um acidente, ou qualquer caso desesperador de risco, chame o SAMU: 15 (número de emergência).

Em alguns desses casos, a língua pode ser uma barreira, então tudo o que eu posso aconselhar é se virar como puder, fazer mímicas, usar o Google Translator, o Wikipédia nas duas línguas, pedir ajuda para outra pessoa… se a situação for mais grave, vá ao hospital.

Lembre-se de acionar o seguro assim que possível se você tiver de usar o sistema de saúde francês.

E sempre mantenha a calma. Não se desespere que é pior (digo por experiência própria).

Na minha nécessaire sempre tem/tento ter: paracetamol, novalgina, aspirina, antialérgico (cetirizina), Dramin, Imosec (mas eu só indico para casos extremos porque às vezes é preciso exorcisar o agente da intoxicação), um antiinflamatório, bombinha de Aerolin, Buscopan, meu remédio para colite, vários tubos de homeopatia (aqui a homeopatia vem em tubinhos e bolinhas. Depois da minha infecção eu mudei muito minha relação com os remédios e a comida. Minha regra agora é o mais natural possível. Um dia falo mais sobre isso – e a comida pode ser o próprio remédio, inclusive). Band-aids. Álcool gel (e também uma versão em lencinhos).

VAMOS FALAR DE COCÔ

Como eu tenho síndrome do intestino (muito) irritável, grande parte da minha vida gira em torno de questões de evacuação (depois de um tempo se perde todo o pudor de tratar desse assunto). Essas questões, quando se trata de uma viagem, podem ser vitais. Por exemplo, eu li o post do Rapha sobre a trilha de Machu Picchu e eu me perguntei, como se faz cocô nessa trilha?? Como se faz cocô quando se fica em albergue? E na casa dos outros?

Toda minha admiração a você que pode viver a vida leve como num comercial de absorvente.

 BANHEIROS EM PARIS

Onde eu vou fazer xixi? E se eu tiver uma emergência?

Primeiro, Paris tem banheiros públicos espalhados pela cidade que são cabines cinzas. Tem gente que jura que são ótimos porque eles têm um sistema de autolimpeza entre um uso e outro (leia as intruções). Eu nunca precisei usar (graças a Deus).

Existem alguns banheiros públicos “de verdade”. Atrás da Notre Dame tem um, próximo ao Petit Palais na Champs Elysées tem outro (do lado direito, olhando para o Arco do Triunfo). Nos parques da cidade têm. Por exemplo, você pode entrar livremente no Centro Georges Pompidou, na Cinemateca Francesa ou na Biblioteca François Mitterand e usar o banheiro sem ter de pagar um ingresso.

Os donos de estabelecimentos não gostam que turistas entrem só para o usar o banheiro, então normalmente se tem que colocar moedas (0,25, 0,50) para entrar e usar. Se você estiver consumindo no local, você pode pedir um “jeton” (moeda/ficha) para o usar o toalete.

Atenção: os banheiros nunca costumam ser tão limpos quanto desejamos.

Recentemente, eu baixei o aplicativo BathroomMap, que combina diversas fontes para indicar onde é o banheiro mais próximo (e funciona onde você estiver!). Ele pode ser útil.

LÍNGUA MACHISTA

doente em paris

O segundo sexo | Foto: Bia Rodovalho

Em francês, atualmente a palavra “médecin” é apenas masculina. Se você vai a uma médica, você tem de dizer que vai chez le médecin, ou que le médecin X ou le docteur te prescreveu isso ou aquilo. No século XVI, existia a palavra “médicine” para designar a médica, mas a reforma do século XVII (feita por homens, é claro) aboliu o feminino das profissões e atividades de conhecimento, apagando da língua e dos espaços sociais e políticos esses lugares em que mulheres pudessem exercer algum poder. Por isso, eu digo sem hesitação “la” médecin e “la” docteure.

Para os francófonos: http://sexes.blogs.liberation.fr/2015/05/31/le-mot-autrice-vous-choque-t-il/.

doente em paris

Pronta para Mallorca | Foto: Bia Rodovalho

 

VAMOS FALAR DE OUTRA COISA

Eu vou viajar em breve. Vou a Mallorca, nas Ilhas Baleares, onde vive parte da família do meu namorado e onde os pais dele têm uma casa. Prometi à Manu fazer um guia com tudo o que eu gosto de lá, mas se você quiser acompanhar minhas “férias” no Instagram, sigam-me os bons: biarodovalho. Já adianto que levo minha tese comigo e que talvez não faça tudo o que gostaria.

Em Paris ninguém mais agüenta esperar pelas férias. Essa semana, por exemplo, em um e-mail, a secretária da faculdade me mandou um “;-D” antes do “bien cordialement” (coisa que eu julgava impensável com tanta formalidade). Em breve quase não restará vivalma parisiense na cidade, mas mesmo assim os turistas poderão curtir no mês de agosto os parques, os sorvetes, a roda gigante do Tuileries, o ar-condicionado dos museus…

A cidade também organiza muitos eventos de verão, como o Cinéma en plein air no parque La Villette. Hoje tem Mika de graça no Hôtel de Ville. MIKA. De graça. Mas não estou com forças para enfrentar 7 bilhões de pessoas para ir vê-lo.

Alguns restaurantes fecham para as férias, então se você tem uma lista de dicas quentes verifique antes de ir.

Veja a lista com alguns hospitais públicos de Paris

Hôpital Hôtel-Dieu
1, place du Parvis Notre-Dame
75004 Paris
01 42 34 82 34

Hôpital universitaire Necker-Enfants malades
149 rue de Sèvres
75015 Paris
01 44 49 40 00

Hôpital Tenon
4, rue de la Chine
75020 Paris
01 56 01 70 00

Hôpital Saint-Louis
1 Avenue Claude-Vellefaux
75010 Paris
01 42 49 49 49

Hôpital Bichat-Claude Bernard
46 rue Henri Huchard
75018 Paris
01 40 25 80 80

Hôpital Bretonneau
23 rue Joseph-de-Maistre
75018 Paris
01 53 11 18 00

Hôpital Saint-Antoine
184, rue du Faubourg Saint-Antoine
75012 Paris
01 49 28 20 00

Hôpital Universitaire Pitié-Salpêtrière
47-83 bd de l’hôpital
75013 Paris
01 42 16 00 00 / 01 42 17 60 60

Hôpital Cochin
27, rue du Faubourg-Saint-Jacques
75014 Paris
01 58 41 41 41

Hôpital Européen Georges-Pompidou
20 rue Leblanc
75908 Paris
01 56 09 20 00

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Sobre o autor

Bia Rodovalho

Brasileira, 29 anos, pediu asilo político na França. Foi parar no subúrbio de Paris. É gauche na vida, feminista e portadora de SII. Pratica yoga às segundas-feiras com um grupo de aposentados. Sua persona acadêmica é mais séria que isso. Bia Rodovalho não é cool.