Doente nas Filipinas: você não vai querer passar por isso

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Ninguém quer ficar doente quando está viajando, mas em um ano longe de casa, em lugares com um padrão de limpeza e atuação da vigilância sanitária tão diferentes do que estamos acostumados, estava preparado para que acontecesse. Só não contava que fosse em uma ilha remota das Filipinas, longe de tudo e de todos, com tantas cidades grandes no nosso roteiro. Mas tem coisas que fogem do nosso controle, né? No fim das contas, valeu como experiência.

Tudo começou com a Manu, que um dia teve um pouco de febre. Escolhemos um remédio dentre os vários que trouxemos, ela tomou e no dia seguinte estava boa, nova em folha. Passamos o dia fazendo um passeio de barco pelas ilhas ao redor de El Nido, portanto molhados e com sol na cabeça, mas tudo certo, nenhum sintoma. Ficamos trabalhando até mais tarde e, de repente, lá pelas 2h da manhã: pá, bateu a febre.

Eu nunca tinha passado por isso, de estar bem em um minuto e doente no seguinte, mas foi o que aconteceu. Senti meu corpo esquentando e amolecendo, comecei a ter calafrios e tive certeza de que era febre. Fui para o quarto, medimos e veio a confirmação: 38 graus. Ok, sabemos o que fazer com isso. Que venha o paracetamol pra tirar esse mal do meu corpo.

MAS NÃO FUNCIONOU, EU REALMENTE ESTAVA DOENTE NAS FILIPINAS

Acordei no dia seguinte e adivinhem quem ainda estava lá: a febre. E um pouco mais alta, já na casa dos 39º. Shit. Vamos lá, organismo, reação. Mais remédio e um dia inteiro na cama com certeza vão dar conta do recado, certo? Errado. No fim da tarde, acordei (de novo) com 40º, pelo que me lembre pela primeira vez na vida (minha mãe pode confirmar aqui embaixo nos comentários). Bateu aquela preocupação, com ela veio uma onda de adrenalina, levantei e disse que estava bem. Realmente me sentia melhor.

Por cerca de 1h eu consegui trabalhar, conversar, fazer piadinhas e até comer. Passado esse tempo, lá estava eu, caído de novo. Foi quando bateu o senso se responsabilidade: será que não devíamos ir ao médico? Eu, particularmente, detesto a ideia. Sou daqueles que evita até o limite e fica achando que não adianta ir ao pronto-socorro porque o diagnóstico vai ser uma virose. Mas estou errado, eu sei, afinal preciso de um tratamento para a virose. E também não estava animado com a ideia de ir ao médico onde estava. Mas 40º são 40º. E ninguém mandou ficar doente nas Filipinas.

Resolvemos deixar tudo no esquema, para o caso de eu não acordar melhor no dia seguinte. Perguntamos na recepção do hotel e soubemos que havia uma clínica particular em El Nido. Já parecia um cenário mais bacana. Ligamos para o seguro – VitalCard -, explicamos a situação, passamos o nome da tal clínica e eles, muito eficientemente, começaram a tentar autorizar uma consulta, mandando status quase de hora em hora pelo WhatsApp. Muito bom o serviço, que foi coroado pela manhã com a confirmação de que a visita ao doutor estava liberada.

Mas aí, claro, acordei melhor: só 37º que, segundo minhas pesquisas sobre o assunto no dia anterior, não é motivo nem para tomar remédio. Estava curado. Mas foi só por algumas horas. O tempo foi passando, a febre foi voltando e, na hora de dormir, já estava de novo na casa do 30 e muitos. Shit (2). Vamos ter que ir no médico amanhã de manhã.

A EXPERIÊNCIA DE VISITAR UM MÉDICO NAS FILIPINAS

Pra vocês terem uma ideia, nosso primeiro pensamento ao chegar, antes mesmo de abrir a porta, foi: “vamos fugir daqui”. E só não colocamos em prática porque começamos a entrar no consultório enquanto discutíamos a ideia um com o outro, e assim que abrimos a porta o Dr. Reyes nos perguntou se éramos a Manoela e o Raphael. Ou seja, tarde demais.

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Um leito na sala de espera do consultório | Foto: Rapha Rotta

Fomos mandados para a sala de espera, que aparentemente também funciona como leito para internação, pois além das cadeiras há uma maca, com um tubo de oxigênio (?). É isso aí da foto acima, que já ajuda a ter uma ideia da estrutura do consultório. Tudo de madeira e, sem brincadeira, mais sujo do que o bangalô onde estávamos hospedados. Enquanto esperávamos, combinamos que no primeiro sinal de uma agulha ou qualquer outro equipamento que tivesse o objetivo de nos furar, fugiríamos – nem que fosse a força.

O lugar estava o maior agito. Além das muitas pessoas que entravam e saíam por todos os lados e as crianças correndo ou chorando ou dormindo em algum canto, era o dia oficial do exame de vista para renovação da carta de habilitação para moto. E a clínica é o único lugar na cidade que é habilitado a fazer o teste. Ou seja, estava abarrotado.

Depois de um cinco minutos, fomos chamados para a consulta. Primeiro umas perguntas de praxe sobre os sintomas, depois o bom e velho estetoscópio. Tirei a camiseta ali no meio de tudo e todos, com destaque para uma velhinha sorridente que não tirava o olho da gente. O doutor começou as verificações e enquanto isso percebi que um cara tentava desviar de mim para enxergar, na parede oposta, o cartaz com as letrinhas que vão diminuindo a cada linha. Exame de vista com obstáculos, pra garantir. Na sequência, o mesmo procedimento com a Manu (sem tirar a roupa, claro), já que teve febre antes de mim, então disse para o seguro que também se consultaria, aí chegou lá e não teve como voltar atrás.

AGORA, PREPAREM-SE PARA O CLÍMAX DA HISTÓRIA, OK?

O doutor disse que precisaríamos fazer um exame de urina. Rapidamente, pensei em duas possibilidades: a primeira, e mais provável, seria ele nos dar uma guia para usarmos no hospital de Puerto Princesa, que é uma cidade maior; a segunda, e ao meu ver remota, seria ele nos dar o potinho para coletarmos o primeiro xixi do dia seguinte e voltar para entregar ali. Mas eu estava errado: o teste ia acontecer ali mesmo, nos minutos seguintes.

Ele perguntou quem ia primeiro e eu fui, enquanto a Manu ficava tomando água, já que não estava pronta para aquilo. A enfermeira me levou a um banheiro pior que o de rodoviária de qualquer lugar da Ásia (foto a seguir para comprovar) e me deu um potinho de alumínio com um tubinho dentro. Fiz o que tinha que fazer, tomei uma picada de inseto no meio tempo, e voltei ao consultório. Minha amostra foi colocada na pia, apareceu uma outra moça, de salto alto, diversas pulseiras, relógio e bolsa pendurada no ombro, para fazer o exame mais old school que já vi: molha um papel na urina e, de acordo com a cor que ficar, chega-se ao resultado.

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O banheiro, o potinho de urina, o ápice | Foto: Manu Pontual

Chegou a vez da Manu e, com ela, o ápice da experiência toda. Sabe o potinho que usei para fazer a coleta? Foi o mesmo que entregaram para ela. Sim, você entendeu certo, o MESMO. Não achamos que fazia sentido questionar, então ela foi, fez a coleta, o procedimento do exame se repetiu, com a mesma moça dos acessórios, que parou no meio para receber um pagamento, abriu a bolsa, colocou o dinheiro na carteira, não lavou a mão e retornou para o exame.

Minutos depois de tudo isso, o Dr. Reyes começou a nos prescrever medicamentos que, segundo ele, não foram autorizados pelo seguro, portanto teríamos que pagar. Antes de qualquer coisa, perguntei qual o diagnóstico – ele achava, não tinha certeza, que se tratava de uma virose – e então expliquei que levaríamos a receita e pegaríamos a autorização de reembolso antes de comprá-los. Demorou um pouco, mas ele entendeu, fez como queríamos e nos dispensou. Tudo isso, metade em inglês, metade em espanhol.

Fomos embora desconcertados e em dúvida se deveríamos tomar os remédios. Então decidimos recorrer a alguém que entende do assunto: uma mãe. Falamos com a da Manu, para que a minha não ficasse preocupada com a minha febre, e ela sabiamente nos orientou a tomarmos, sim, porque mal não ia fazer e, de repente, nada melhor que um antiviral local para combater uma virose local. Não é que deu certo? Tomei tudo e fiquei bom! Obrigado, Dr. Reyes, pela ajuda e pela experiência.

PARA REFLETIRMOS

Brincadeiras à parte, acho importante chamar a atenção para o quão complicado e diferente da nossa realidade pode ser a vida de outras pessoas, em outros lugares do mundo. Para mim, que tenho a sorte de ter uma condição privilegiada, foi um choque a falta de estrutura e higiene com que a saúde é tratada, mas o local onde estivemos é, para muitos, a melhor referência em termos de tratamento médico e um verdadeiro salvador de vidas. E isso me leva a duas principais reflexões sobre o assunto: que bom poder viajar, para sair da minha zona de conforto e aprender a agradecer, com a prática e a vida, as oportunidades que temos. Com certeza, em uma próxima visita àquele pronto-socorro fino, todo branquinho, em que todos os trabalhadores usam uniformes esterilizados, vou pensar duas vezes antes de me incomodar e reclamar porque está demorando muito. Podia ser bem pior, né?

PS.: pedimos desculpas pela qualidade das fotos, mas foram tiradas no melhor estilo “câmera escondida”, então sabe como é…

O que achou? Conta aqui pra gente :)

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Sobre o autor

Rapha Rotta

Sócio-fundador da Plot, se apaixonou por viajar quando mochilou pela Europa e, desde então, não parou mais: depois de alguns lugares na América do Sul e outros da América Latina, hoje vive no sudeste asiático, onde tenta comprovar a teoria de que é possível, sim, "viver de viajar".