Le “French Dream”

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C’est la vie

Os franceses têm um sonho. Depois de quase seis anos vivendo em território francês, com um francês, percebi que comecei a assimilar minhas perspectivas, desejos e planos à vida como ela é na França. Descobri o French dream. E, ao contrário do que se pode imaginar, o French dream, assim como o americano, ou o de qualquer sociedade, não tem nada de extraordinário – ele nada mais é do que a realização plena do ordinário, da regra. Quem quer viver o rêve français quer prosperar na normalidade, encontrar a felicidade em conseguir tudo que se espera de alguém. Trata-se de um conjunto de expectativas, moldadas num ideal, que, na prática, geralmente resultam em uma versão imperfeita, por vezes infeliz, angustiada, cheia de recalques e de uma geração inteira no divã do psicanalista.

Não sei mais como é no Brasil porque meus amigos são todos “artistas” (sabem, essa gente estranha) (ou resolveram fundar a Plot). Mas o French dream é mais ou menos esse:

  1. Ir à universidade,
  2. sair da casa dos pais o mais cedo possível (i.e., antes dos 22),
  3. conseguir um “bom emprego”,
  4. encontrar o amour da sua vida,
  5. emménager ensemble” – ir morar juntos,
  6. ter um gato,
  7. casar (ou pas),
  8. comprar um apartamento (para o qual se pega um empréstimo no banco),
  9. ter um bébé,
  10. avançar na carreira,
  11. passar alguns verões no Mediterrâneo,
  12. etc.

É isso o que todo mundo faz, é isso que se espera dos jovens (especialmente a parte do “bom emprego”). (#winning).

Meus vizinhos são a encarnação desse ideal. Eles são campeões no French dream da classe média. Mais ainda do que os amigos do meu namorado que eu apelidei de “o casal mais heteronormativo que eu conheço”. Um dia ainda escrevo sobre eles.

Diante disso, Deus-o-livre se você escolheu outra coisa (leia-se doutoranda em cinema ou outras profissões que não são profissões “de verdade”).

ANGELINA, ENTRE O COOL E O TURISMO-TIOZÃO 

Nos idos de 2014, os avós do meu namorado nos presentearam com uma “box”. Também não sei se isso existe no Brasil, mas a “box”, em bom português, é um vale-presente. É um catálogo que permite escolher uma das opções oferecidas, no caso, de restaurantes. Existe “box” de viagem, de massagem, de atividades “insólitas”, para uma ou duas pessoas. Estudando o catálogo da nossa “box”, vi que uma das opções era o brunch do Angelina. It’s time, pensei (e o quão cool é um brunch?). O Angelina é um “salon de thé” fundado em 1903 que hoje transita justamente entre o cool, o tradicional e o turístico de Paris. Eles também têm “pâtisseries” (doces) e um célebre chocolate quente.

A data escolhida foi um domingo de manhã de março. Ainda bem que reservamos, porque a fila de espera era grande. Acomodaram-nos no primeiro salão, em uma mesinha minúscula, ao lado de um casal de franceses (meia-idade, arrogantes), uns tiozões turistas (tênis e máquina fotográfica no pescoço), e um grupo de amigos cool (chapéu grande, magreza e atitude). Ah, vocês vão comer o brunch, non? Vão precisar de uma mesa maior. Mudamos então para o fundo do Angelina, que tem mesas mais apropriadas para brunch. Ao nosso lado, um grupo de dez americanas adolescentes oh-my-gawd, um casal normal (veja acima), e uma família de italianos ricos casualmente encontrando a filha que mora em Paris e é casada com um francês.

O brunch em si é ótimo – e farto. Mas o lugar estava lotado e quente e barulhento, e os garçons apressados. Aff, pensei, isso não é vie. Quanto sacrifício para ser cool. Fiquei feliz em sair de lá e tomar ar no Tuileries. Sei que preciso voltar para fazer justiça ao dito brunch, mas em dia de semana, mais cedo, com mesa reservada, s’il-vous-plaît.

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Sobre o autor

Bia Rodovalho

Brasileira, 29 anos, pediu asilo político na França. Foi parar no subúrbio de Paris. É gauche na vida, feminista e portadora de SII. Pratica yoga às segundas-feiras com um grupo de aposentados. Sua persona acadêmica é mais séria que isso. Bia Rodovalho não é cool.