O dia em que decidi fazer uma viagem foda

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Conheça a história do Le Tour de Vaqué, uma road trip  muito divertida e cheia de autenticidade, narrada por Max Wohland (@max_wohland) consultor de comunicação e branding e, sócio da Garagem 53.

O dia em que decidi fazer uma viagem foda.

Viagens fodas são relativas, afinal, cada um acha foda o que quiser. Por muitos anos seguidos eu quis viajar de uma forma muito confortável e esteticamente ideal. Parte por referências pessoais, parte pela companhia nessas viagens.

Meu pai sempre me disse que quando é pra fazer algo, é pra fazer direito. Eu usava esse raciocínio e concluía que, já que vou viajar, tenho que ficar no melhor hotel que eu posso pagar, ir da forma mais confortável possível e comer nos lugares que eram destaque ou referências no destino escolhido. Isso tudo não é errado, mas também não é a única interpretação do “fazer direito”.

Por certo tempo mantive essa forma planejada, organizada, engomada e encaixada dentro do meu padrão classe média, em momentos de profunda indulgência. Talvez isso seja o resultado de um excesso de Hotel Côstes e Cafe del Mar enquanto lia guias e blogs, enchendo a cara de vinho que não merecia a taça em que era servido. Veja bem, eu fazia meus roteiros, os diagramava, imprimia em couché 110g, mandava encadernar em espiral transparente. O cara da imigração americana já pegou um desses, leu, me olhou e falou “…é sério isso? Você, além de bem vindo, devia vender isso aqui”.

Como disse, parte deste estilo Álvaro Garnero de Santo Amaro vinha também das minhas companhias de viagem. Em outras palavras, eu me adaptava ao estilo de outras pessoas e buscava um denominador comum. Uma vez que mudei as companhias, decidi  rever o que era bom pra mim e para os outros, dentro do roteiro e dentro da experiência que é viajar.

Então veio a primeira ideia de viagem internacional com amigos. Amigos com a mesma cabeça e mesmo espírito: valorizar momentos, pessoas e experiências inéditas. Se o ineditismo era a chave, decidimos investir nisso. Usamos duas semanas entre dezembro e janeiro para fazer uma viagem de réveillon.

Orçamento reduzido, vontade de sair do Brasil e a total necessidade de fazer algo diferente…

Roadtrip pra Córdoba, Argentina! Ah não, é legal, mas é longe. Não cabe nos 15 dias e fica caro. Ok. Montevideo, Uruguai? É possível. Ouvi dizer que o réveillon em Punta Del Diablo é bom. Ok, vamos então. Com qual carro? Vamos comprar uma Kombi e vamos. Kombi ou quebra ou pega fogo – nem sempre nessa ordem. Então vamos com o carro mais novo do grupo. Um Uno branco? Ah, mas a gente faz alguma coisa pra ele ficar mais diferente. Branco… Branco pode ser um bicho, tipo uma vaca, uma zebra e etc. Vaca é mais simpática e mais fácil de ser feita. Beleza, Uno vaca até o Uruguai. Bota um nome aí… que tal Le Tour de Vaqué? É isso, vou desenhar o carro e já faço a revisão na oficina.

Nasceu aí o Le Tour de Vaqué. Muitos perguntaram porque viajamos em um carro vaca, mas isso não tem muita explicação. Por que não uma vaca? Viajamos assim porque é legal, oras. E pros chatos que querem uma resposta racional, é muito melhor você chegar a uma pequena cidade desconhecida com um carro vaca do que com um SUV de playboy. Afinal, não é um carro, é o começo de uma conversa.

Le tour de vaque

Le tour de vaque

Saímos de São Paulo e seguimos pela costa do Brasil. Estrada da Graciosa, Morretes, Matinhos, Guarda do Embaú, Imbituba, Laguna, Farol de Santa Marta, Xangri-lá, São João do Norte, Rio Grande e então cruzamos o Chuí, rumo ao réveillon em Punta Del Diablo.

Depois de Punta Del Diablo fomos para a Punta dos ricos, a Del Este e chegamos a Montevideo. Esse era o lugar onde demos meia volta e seguimos para o Forte de Santa Teresa, ainda no Uruguai. Passando a fronteira fomos a Pelotas, Porto Alegre, Cambará do Sul e seus canyons, Serra do Rio do Rastro, Bom Jardim da Serra, Curitiba, Riviera de São Lourenço e enfim São Paulo novamente.

O carro e a musa

Diferente dos roteiros em papel couché do passado, essa viagem teve outro tipo de preparação: revisões no carro que virou vaca, na moto que o acompanhou e o detalhamento do que existia no caminho entre São Paulo e Montevideo. Era importante saber como era o caminho para não passar reto por lugares que poderiam ser interessantes. Porém, mais importante do que qualquer mapa ou guia, era não ter a obrigação de fazer nada. Uma viagem sem reservas, sem hotel boutique, sem city tour, sem blog de gastronomia, sem expectativas. Foram hotéis, pensões, hostels e campings de última hora.

No Brasil, onde ainda existia 3G, aplicativos como Waze, Booking e Hoteis.com foram fundamentais para organizar nossas chegadas às cidades. Nem sempre era possível. Por isso os frentistas e transeuntes de meia idade são essenciais. São aplicativos humanos, dispostos a ajudar pessoas em carros malhados.

A ideia do carro ser uma vaca deu bastante certo, era um bom quebra gelo em qualquer cidade, dentro e fora do Brasil. Pessoal dava tchau, as crianças apontavam e pediam pros pais, tinha gente que mugia, tirava foto, pedia carona. Até as vacas de verdade interagiam, porque alguém levou um MP3 com uma hora de mugidos.

E foi depois de fazer tudo isso que percebi que uma viagem dessas também entra no “fazer direito” que me persegue até hoje. Lembro do meu pai, o mesmo que sempre me cobrou esse espírito de fazer as coisas da melhor forma possível, quando viu o carro vaca pela primeira vez. Não falou muito, mas seu olhar dizia: “meu filho é idiota, mas essa vaca está profissional”, seduzido pelas curvas daquele ruminante.

Esse conjunto de experiências relacionadas ao Le Tour de Vaqué, pra mim, configura o que é uma viagem foda. Não tem a ver com a qualidade estética do que foi feito, ou se onde eu fui era bem cotado e constava em um guia da moda, mas sim com o que foi vivido naqueles 15 dias. Afinal, por mais que inventem teorias sobre o assunto, viagem é isso: tirar um momento pra viver mais.

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O Le Tour de Vaqué  aconteceu em 2014 e pretende retomar essa  em 2017,  tendo o Atacama como destino. Você pode acompanhar a viagem aqui.

Link da página do Le Tour: https://www.facebook.com/letourdevaque
Instagram: https://www.instagram.com/max_wohland/

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