Alguns pensamentos sobre morar fora e 6 dicas para se adaptar em outro país

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MORAR FORA, MORAR DENTRO, MORAR DO AVESSO…

Hoje, dia 13 de outubro, faz 6 anos que desembarquei em Paris para meu mestrado. Aos 23 anos, tomei o avião cheia de medo e de expectativa e não sabendo bem o que eu estava fazendo (nota: talvez eu ainda não saiba).

Ontem, chegando na faculdade com uma horda de estudantes de graduação, não quiseram me entregar um flyer para uma festa de integração open bar. Realmente, o tempo passou, e não pareço mais ter vinte-e-poucos.

É estranho me dar conta de que passei a maior parte da minha vida adulta – descobrindo o que é ser adulta (nota: ainda não descobri) – longe do Brasil, longe de casa (mesmo que “casa” seja também esse apartamento bagunçado na ‘banlieue’ parisiense).

Recentemente o Fábio escreveu (tão bem) sobre o tempo, e sobre partir para longe. Faz só 1 ano que ele partiu, para mim faz 6. Seis… Tanto, e ao mesmo tempo tão pouco.

O Fábio também falou em sair da sua zona de conforto. Para mim, confesso que me atirei na zona de “desconforto” e atingi a zona de “fobia social”. A chegada e a adaptação foram tão difíceis e colocaram-me constantemente à prova.

Aprender a navegar os códigos de uma outra sociedade foi meu maior desafio (nota: ainda são). A distância da família e do que é familiar também.

Há algum tempo lembro-me de ter lido num blog de uma americana que viveu em Paris por muitos anos um artigo em que ela pedia para as pessoas pararem de contar histórias românticas sobre mudar de país. Quantos livros encontramos sobre mulheres que largaram tudo para encontrar em Paris a si mesmas e o amor de suas vidas. Quantos blogs contam histórias “higienizadas” da mudança – e das mudanças. Histórias assim só nos fazem nos sentir diminuídas por enfrentarmos mal as dificuldades e os insucessos. Essa mulher lutou anos contra o alcoolismo e teve um câncer de mama durante sua vida na França. Ela não os esconde da narrativa que ela constrói em seu blog. Os problemas, é claro, podem ser de diferentes naturezas. Só essa semana, por exemplo, uma amiga recém-chegada teve uma crise de choro por dois dias. Uma estudante teve cistite. Eu desmarquei a terapia pelo motivo pelo qual faço terapia (nota: um dos motivos).

Como o Fábio, sou também molenga-leite-com-pêra em falar dos meus “perrengues”. Temos, afinal, histórias de privilégios. E histórias lindas. E não somos refugiados nem exilados forçados. Não podemos nos esquecer disto – nem deles.

 

SEIS DICAS PARA SE ADAPTAR EM OUTRO PAÍS

Como comemoro meus 6 anos de vida além-mar, listo aqui 6 conselhos que eu gostaria de ter seguido (mais) quando cheguei.

Sobre morar fora

Paris je t’aime/ moi non plus | Foto: Bia Rodovalho

 

Como comemoro meus 6 anos de vida além-mar, listo aqui 6 conselhos que eu gostaria de ter seguido (mais) quando cheguei.

  1. Faça coisas sozinha(o). Não espere ter companhia para fazer coisas interessantes. (E faça as coisas interessantes mesmo tendo que abrir uma conta no banco ou lavar a sua roupa ou ir até a prefeitura).
  2. Faça amigos. Parece um tanto contraditório, mas não é. Não tenha medo de se aproximar das pessoas. Construir um círculo local de amigos é fundamental. Se você já não tem ocasião de encontrar novas pessoas (como numa faculdade), crie-as. Matricule-se num curso de línguas, procure uma aula de zumba ou de judô, torne-se voluntário em alguma associação.
  3. Flane pela cidade. Andar pelo espaço da nova cidade é uma maneira de se apropriar dela, de descobri-la e de torná-la mais familiar.
  4. Pratique algum esporte. Vá andar, correr, nadar. Não tenha preguiça. Você pode evitar todos os 8 quilos que você vai engordar comendo E produzir serotonina E quem sabe fazer amigos.
  5. Faça um plano de celular com internet (para ter contato contínuo com a família e os amigos no Brasil e receber fotos do cachorro da sua irmã onde quer que você esteja). E para todo o resto.
  6. Não tenha medo. Se tiver, (acho que foi o Rapha que já escreveu isso por aqui), vai com medo mesmo. (Mas eu não estou falando em se colocar em perigo. Tenha noção).
Sobre morar fora

Quando eu encontrei a Manu num bar na Butte aux Cailles, 154 semanas atrás segundo o Instagram – ela estava chegando para sua temporada em Paris | Foto: Bia Rodovalho

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Sobre o autor

Bia Rodovalho

Brasileira, 29 anos, pediu asilo político na França. Foi parar no subúrbio de Paris. É gauche na vida, feminista e portadora de SII. Pratica yoga às segundas-feiras com um grupo de aposentados. Sua persona acadêmica é mais séria que isso. Bia Rodovalho não é cool.