O dia em que ficamos ilhados

Em abril do ano passado, eu e a Manu resolvemos organizar, pela primeira vez, uma viagem que juntasse nossos grupos de amigos e tivemos uma bela adesão, de quase 30 pessoas, distribuídas em três casas alugadas no Pouso da Cajaiba, que fica perto de Paraty, no RJ.

Como eu já tinha ido para lá algumas vezes, conhecia algumas pessoas no vilarejo, então foi fácil conseguirmos as casas de que precisávamos e um barco, para nos levar do pequeno porto em Paraty-Mirim (último lugar onde se pode chegar de carro) até nosso destino. Quando chegamos, aliás, o Ananias já estava à nossa espera, para embarcarmos e partirmos.

Na região de Cajaiba, existem outras praias, tanto acessíveis por barco, como por trilhas – o que, eu um grupo grande, tende a ser algo bem complicado de se coordenar. Percebendo isso, o Ananias se ofereceu para ficar reservado para nós pelos dias do feriado, assim não precisaríamos correr atrás de transporte pra tanta gente e ele não precisaria correr atrás de passageiros pra encher seu barco. Ótima proposta, no melhor estilo ganha-ganha, que fechamos na hora e criamos um roteiro do que faríamos a cada dia.

O barco João Lucas é o barco do Ananias, que nos acompanhou na viagem | Foto: arquivo pessoal
O barco João Lucas é o barco do Ananias, que nos acompanhou na viagem | Foto: arquivo pessoal

Eis que chegou o dia de irmos até a Sumaca, uma praia linda, pequena e tranquila, que consiste em uma propriedade privada e onde barcos grandes – como o nosso – não conseguem atracar. Portanto, tínhamos duas opções: ir com o Ananias até uma parte do caminho e, de lá continuar por trilha; ou fazer a segunda metade de lancha rápida. Optamos pela primeira e combinamos o horário em que nos encontraríamos na volta, no ponto em que ele nos deixou.

A praia onde ficamos ilhados | Foto: arquivo pessoal
A praia onde ficamos ilhados | Foto: arquivo pessoal

Mas, acontece que, depois de muitas cervejas, percebemos que não queríamos encarar a trilha de volta e aí surgiu a ideia de negociarmos com as lanchas rápidas para que elas nos deixassem no lugar onde o Ananias nos buscaria. Funcionou e começamos o transporte, com um detalhe: cada lancha rápida poderia levar 4 pessoas por vez e, como éramos em muitos, precisaríamos de algumas viagens. Até aí, tudo bem.

Fiquei para a última leva, com a Manu e mais dois amigos. E, quando nossa lancha rápida apareceu, um senhor – que poderia ser o dono do bar ou o dono da ilha, isso não ficou claro – se antecipou em embarcar um outro grupo de pessoas na nossa frente. Vimos que o barqueiro questionou, nós também questionamos, mas como resposta ouvimos que podíamos ficar tranquilos, pois lá é que não iríamos passar a noite. Ok, bora esperar.

Chegaram mais algumas lanchas, já reservadas para outros grupos e a nossa nunca reapareceu. A praia foi aos poucos esvaziando, até que sobramos poucas pessoas. Conversamos e decidimos que nada, nem ninguém, nos impediria de pegar a próxima que chegasse e, assim como os demais ilhados, corremos quando a próxima lancha chegou. Começou a discussão sobre quem iria, mas, no fim, fomos todos, embora isso significasse mais gente do que o recomendado, afinal não tínhamos muita opção e também só faríamos uma parte do trajeto (os demais iam direto pra Cajaiba). O mar já estava agitadíssimo e, como forma de se localizar no escuro, o barqueiro percorria um trajeto próximo à costa, o que dava a constante sensação de que a qualquer momento íamos (a) virar, (b) bater nas pedras ou (c) as duas coisas.

Quando chegamos ao ponto de encontro combinado com o Ananias, adivinhem: eles não estavam mais lá. Não ficamos com um sentimento de abandono, pois entendemos que algo tinha feito com que eles precisassem sair (a noite, a maré o tempo que demoramos, eram muitos possíveis fatores). E sabíamos – ou achávamos – que eles sabiam que íamos dar um jeito. Avisamos o barqueiro pra tocar pra Cajaiba e assim fomos, tomando jatos de água na cara até chegar lá. No caminho, inclusive, cruzamos com o nosso barco, acenamos, nossos amigos acenaram de volta e achamos tudo isso bem engraçado.

Chegamos em terra firme e já estávamos em casa, tomando uma cerveja na varanda, quando um de nossos amigos apareceu correndo, todo molhado e bastante esbaforido. Ele olhou pra nossa cara, correu de volta em direção ao mar (nossa casa era de frente pra praia), gritando: “eles estão aqui, eles estão aqui”. Demoramos uns segundos pra entender que ele estava gritando para nossos amigos que ainda desembarcavam do barco grande para um pequeno que pudesse chegar até a areia – sim, ele pulou e veio nadando, desesperado.

Aí fomos saber que: o Ananias alertou que seria preciso voltar quando anoitecesse, por conta da maré e todos protestaram, dizendo que não podiam nos deixar pra trás; ele concordou, fingiu que acatou e disse que, então, ia deixar o motor ligado para sairmos assim que chegássemos, mas na verdade ele partiu na mesma hora; começou uma confusão no barco e ele se comprometeu a deixar todos em segurança na praia e voltar de lancha rápida para nos buscar; muitas teorias surgiram, inclusive a de que tínhamos resolvido encarar a trilha de noite (amigos, qual a chance?); e, por fim, todas as lanchas rápidas que passavam pelo barco acenavam e gritavam, então eles não nos identificaram quando fizemos o mesmo, afinal estava escuro.

Mas, no fim, deu tudo certo. Eles chegaram um pouco assustados, inclusive o Ananias que veio nos dar um abraço e alívio por estar tudo bem, mas depois de um tempo se juntaram a nós, os ilhados, que estávamos rindo e achando tudo engraçado desde o começo.

 

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Rapha Rotta
Sócio-fundador da Plot, namorado da Manu, libriano indeciso e a cada dia mais asfaltofóbico. É apaixonado pelo mundo desde que consegue se lembrar e não consegue se sentir tranquilo sem saber quando será a próxima viagem.

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