O que os ataques a Paris nos ensinam?

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Na última sexta-feira à noite fui surpreendido, como todos, com os terríveis ataques a Paris. A história todos já conhecem e, neste espaço, não pretendo discutir tal assunto, que é mais político do que desejo para coluna.

Mas o que queria falar aqui é sobre aonde nasce o terror que viveram os franceses. Gostaria de falar sobre um dos efeitos da tal Globalização, que alguns esquecem de praticar: a mistura entre as diferentes culturas. E, após um ataque destas proporções, há sempre opiniões divergentes sobre tudo isso. De um lado, aqueles que conversam e entendem outras culturas, demonstram tolerância, compaixão. Do outro, aqueles que, ao serem confrontados com outra cultura, fazem o inverso, geram repulsa e ódio, em diversas escalas. Neste tenebroso lado, temos os que hoje criticam refugiados e muçulmanos, como se a culpa m deles.

A pergunta que me faço é: será que essas pessoas já conversaram e tentaram entender, ou até mesmo vivenciar, um pouco da cultura dessas outras pessoas? Vou além, e você? Quanto conhece da cultura à sua volta? O que pensaria de um grupo de estrangeiros se um deles atacasse a sua cidade?

Neste caso, não precisa ser somente um estrangeiro. A cultura não é só entre países, é entre regiões, cidades, grupos de pessoas. O quanto você, amigo paulista, conhece da cultura nordestina? E o inverso, quanto o amigo nordestino conhece da cultura paulista? Este é um exercício que faz parte da minha vida. Como podes ler no meu primeiro post, o que não faltaram na minha vida foram mudanças e, no fim das contas, me acostumei a me adaptar e conhecer melhor o meu novo ambiente. Com a grande mistura que temos no Brasil, é muito fácil praticar esse entendimento do próximo, e é muito saudável. A prática te deixa mais humano, mais tolerante, além de lhe trazer amigos de onde você menos esperava.

Comece esse exercício na sua cidade e garanto que nas próximas eleições, você não xingará outras regiões do Brasil, e descobrirá que a pessoa pode ser muito divertida, independentemente de qualquer opção que tenha feito na vida. Em outras palavras, te deixará menos pré-conceituoso, afinal, um pouco mais de informação não faz mal a ninguém. Eu fiz isso à força, e talvez não tivesse feito caso estivesse até hoje morando em Recife, minha cidade natal. Em questão das culturas brasileiras, estou longe de ser um expert (mas longe mesmo!), mas sei respeitar as diferenças e enaltecer as qualidades, minhas e de outros.

Depois, pratique em viagens. Eu sempre fui adepto à conversa para conhecer melhor o próximo. Na minha última viagem, para Malta, aluguei um quarto via Airbnb e na casa moravam outras 12 pessoas. Uma de cada lugar do mundo. Logo na primeira noite, não resisti: eu e meu amigo (Diego) compramos algumas cervejas e fomos conversar. Depois de cerca de 4-5 horas de conversa, entendi muito mais sobre outras regiões do mundo, sobre problemas do outro lado do mundo, e de qualidades que talvez eu pudesse aproveitar e aprender. Isso é muito valioso, seja na vida profissional ou social, te torna uma pessoa diferenciada. Nestes tempos de polarização e ódio, temos a tolerância, adaptabilidade e sede por aprendizagem como qualidades que deveríamos perseguir.

E o que isso tem a ver com Paris? Bom, há alguns anos eu vivi em uma pequena cidade da Inglaterra (Worthing), na capital dinamarquesa e, hoje, em Viena, na capital austríaca, e, posso dizer, a tolerância e o conhecimento é uma poderosa, possivelmente a mais poderosa, arma contra o que vivemos hoje. A França é conhecida pelos seus problemas com mulçumanos, muito por falta de comunicação de ambos os lados. O Francês que não conhece o islamismo, e o mulçumano que não quer se adaptar e conhecer a cultura local. Resultado: ódio, ódio extremo, extremismo. Logicamente, isso não vale para todos, aliás, vale para uma pequena minoria, que infelizmente fala muito alto (a prova disso é que por volta de 10 atacaram Paris, enquanto milhares de parisienses e mulçumanos se solidarizam entre si).

Ao contrário, na Dinamarca temos a visão de um lugar pacífico, com todas as minorias sendo extremamente respeitadas, e aceitas. Em troca, todas as minorias se encaixaram na vida dinamarquesa, entenderam seus costumes. O mesmo, até aqui, posso dizer de Viena, uma cidade que supera qualquer capacidade logística em aceitar seus refugiados. Nestes dois locais, os grupos que não assimilam o próximo são insignificantes. Resultado: tolerância, compreensão e paz. Nenhuma das duas está livre de possíveis tragédias. Copenhague sofreu um ataque em fevereiro e na terça, 17 de novembro, tivemos uma ameaça de bomba aqui em Viena. Era um alarme falso.

Bem, como disse a Bia Rodovalho em seu post, a resposta para estes dois acontecimentos tem que ser, e é, seguir a vida e barrar qualquer pensamento intolerante. Copenhague, 9 meses depois, seguiu intacta e tolerante, vitória dinamarquesa, e Viena fará o mesmo. E, sou capaz de apostar, se algo acontecer por essas cidades, não será feito por alguém que mora nela.

O que quero dizer para você, caro leitor, é: você faz a diferença com a sua tolerância. É verdade, no Brasil o extremismo religioso não mata. Mas a homofobia mata, o bairrismo também, e diversas outras intolerâncias matam. Conheça o outro, quanto mais diferente a cultura, mais legal será. Um punhado de tolerantes, gera um país tolerante e pode inspirar outros, como a Inglaterra, Dinamarca e Áustria me inspiraram. Não evitaremos novo ataques a Paris, mas evitaremos muito sofrimento a nossa volta. Vamos começar essa corrente?

O que achou? Conta aqui pra gente :)

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Sobre o autor

Lucas Alencar

Recifense de nascimento, mas ainda procurando qual o seu lugar no mundo. Formado em Administração, abriu mão de Trainees e outros começos mais tradicionais no mercado de trabalho para estudar em Viena e seguir o seu sonho.