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O tubarão baleia corre risco nas Filipinas e a culpa é do turismo

O whale shark (ou, em português, tubarão baleia) é o maior dentre todos os animais aquáticos conhecidos, mas o turismo nada consciente que é praticado nas Filipinas coloca a espécie em sério risco. Por esse motivo, decidimos que em hipótese alguma participaríamos do passeio que é amplamente oferecido para vê-los e conto nesse texto os porquês. Espero despertar sua consciência para essa e muitas outras questões que acontecem o tempo todo e cabe a cada um de nós, viajantes e turistas, dizer “não”.

A SITUAÇÃO DO TUBARÃO BALEIA NAS FILIPINAS

O tubarão baleia é um animal migratório, que percorre distâncias imensas, de acordo com um ciclo de disponibilidade de nutrientes em plânctons, que são a base de sua alimentação. Seguindo a lógica da natureza, sua permanência nos arredores das Filipinas deveria se estender por cerca de 60 dias no período de um ano, mas na prática não é isso que tem acontecido: segundo a Sierra Madre Divers, uma empresa que incentiva o turismo consciente, recentemente foi registrada a estadia de um animal por 392 dias.

Você consegue adivinhar o motivo para essa “quebra” na tendência natural das coisas? Acertou quem chutou “intervenção humana”. Tudo começou na região de Oslob, cidade ao sul da província de Cebu, nas Filipinas, onde os pescadores locais identificaram a presença dos animais durante pescas noturnas, perceberam seu comportamento totalmente passivo em relação às pessoas e descobriram uma forma de mantê-los ali, como cativos não enjaulados: com comida. Balanceada? Faça-me rir!

O que se criou a partir daí é uma atividade turística intensa, que soma uma série de outras más condutas com relação ao tubarão baleia. Querem alguns exemplos? Os turistas encostam nos animais e tentam se pendurar, com frequência, em suas nadadeiras, para dar um passeio pelo mar. Os barqueiros, a fim de evitar um choque dos enormes animais contra seus barcos, empurram-nos de volta para baixo, com mãos, pés e o que mais estiver à disposição por ali – como estacas de madeira. Isso sem contar que, todos os dias, forma-se um cerco de barcos ao redor dos whale sharks, a fim de garantir o entretenimento

Em 2012 circulou na internet uma foto de uma menina asiática em pé em um tubarão baleia. E antes que você pergunte como fizeram para que o animal ficasse ali parado, respondo: amarrado por uma corda em uma pedra. Fico me perguntando o que essa mocinha acharia de ser amarrada em uma pedra para outras pessoas subirem em cima dela, mas a grande verdade é que, pelo que percebemos, a consciência ambiental aqui na Ásia é algo que está tão distante quanto o Brasil, o que é uma pena, pois a riqueza natural da região é impressionante, mas muito mal cuidada. O povo não está nem aí (com exceções, claro), o governo não fiscaliza as poucas leis que existem e, enquanto isso, os empresários do turismo (também não todos), dos grandes aos pequenos, deitam, rolam e destroem.

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Esse lindo tubarão baleia parece uma prancha? | Foto: reprodução

OS IMPACTOS PARA O TUBARÃO BALEIA

Vamos à lista:

// O tubarão baleia passa a entender que humanos e/ou barcos são sinônimos de comida, portanto perdem o receio de se aproximar e, ao sair da áreas em que a caça é proibida (como é o caso das Filipinas, apesar dos pesares), torna-se presa fácil, do tipo que se apresenta para ser abatida.

// O ciclo migratório do tubarão baleia está sendo interrompido, o que não impacta apenas o cumprimento da cadeia alimentar como um todo, mas o coloca sob risco de extinção, por não cumprir com sua “função natural” – pouco é sabido sobre sua reprodução e pode nem haver tempo para que se descubra.

// A pele do tubarão baleia não está acostumada ao contato com bactérias humanas, portanto há grande probabilidade de infecções, assim como a borracha dos barcos também é prejudicial e causa enormes machucados com alto risco de inflamação – isso quando eles não se machucam com as hélices dos barcos ou com os pedaços de madeira usados para afastá-los (para ver as cicatrizes, clique aqui).

// O mais óbvio dentre todos os pontos é com a relação aos índices de nutrição do tubarão baleia que se tornam mais baixos pela troca de comida natural e adequada à sua condição, pela que é fornecida pelos locais. Junto com isso há o aumento do gasto de energia para se aproximar dos barcos ou lidar com os turistas, que não é reposta.

ALTERNATIVA PARA VER O TUBARÃO BALEIA

A única maneira consciente de ver um tubarão baleia é por meio de mergulho com cilindro e não há garantia de que eles estarão ali te esperando, já que são espécies migratórias. Existem inúmeras escolas que oferecem pacotes de um dia, mesmo para iniciantes, que podem inclusive opinar sobre a probabilidade do encontro com o gigante animal, afinal ele é livre e está simplesmente vivendo sua vida, não se exibindo para o deleite de turistas.

Nesse caso, vale reforçar, todas as orientações com relação à interação com o tubarão baleia se mantêm: nem pense em tocá-los, tentar alimentá-los ou qualquer coisa do tipo, pois assim você estará contribuindo com algo prejudicial e muitas vezes irreversível – estudos dizem que, mesmo que a alimentação forçada em Oslob seja interrompida, não há garantia de que os animais ali represados retomem seu ciclo de migração, mas de qualquer forma a interrupção é necessária para ontem, a fim de evitar que mais e mais espécies parem nesse cativeiro sem grades.

A MUDANÇA COMEÇA EM CADA UM DE NÓS

Por cada turista ou viajante que se mantiver longe de práticas como essa, por mais tentadora que seria a oportunidade. Seria legal vê-los de perto? Sem dúvida. Uma fotinho com um tubarão baleia cairia bem no nosso Instagram? Grandes chances de recorde de likes. Mas vale a pena? Na minha opinião, de jeito nenhum, assim como eu tenho certeza que não ficaria tão emocionado com o assunto, como fiquei ao ler e saber dessa triste realidade.

Enquanto houver demanda, haverá oferta. É assim que o mundo gira e na indústria do turismo, que é especialmente oportunista, não seria diferente.

E vale dizer: não adianta culpar apenas a comunidade local, que encontrou no tubarão baleia uma “mina de ouro” em um contexto em que as únicas atividades disponíveis são a agricultura e a pesca. É preciso, sim, conscientiza-los com relação aos malefícios da prática, para que então seu comportamento possa ser julgado em condições justas. Mas o governo, infelizmente, não parece enxergar o caso com prioridade, já que há anos a discussão circula na internet e tudo continua igual.

Por fim, é importante lembrar que o caso do tubarão baleia nas Filipinas é um, dentre muitos que acontecem o tempo todo, no mundo inteiro. Recentemente o caso do leão Cecil que foi assassinado por um americano nas imediações de uma reserva ambiental ganhou repercussão nas redes sociais. Mas quantas outras não passam batidas e vão, pouco a pouco, destruindo o nosso planeta? Não tenho a resposta, confesso que não gosto sequer de imaginar, mas continuarei dizendo “não”  ao turismo não ecológico/consciente e espero que você faça o mesmo.

Se quiser contar essa triste história para mais gente e ajudar na disseminação do que não deve ser feito, utilize os botões de redes sociais aqui embaixo. Nós, e principalmente cada tubarão baleia que está em risco, agradecemos.

Referências:

http://dive-bohol.com/conservation/5-reasons-not-go-oslob/
http://www.deepseanews.com/2012/08/whale-shark-ecotourism-the-good-the-bad-and-the-ugly/
http://www.markmaranga.com/whale-shark-butanding-maltreatment-in-boljoon-and-oslob/
http://www.huffingtonpost.co.uk/maria-sowter/why-you-shouldnt-swim-wit_b_5855940.html
Rapha Rotta
Sócio-fundador da Plot, namorado da Manu, libriano indeciso e a cada dia mais asfaltofóbico. É apaixonado pelo mundo desde que consegue se lembrar e não consegue se sentir tranquilo sem saber quando será a próxima viagem.

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