Pai na Tailândia: tudo que era para ser e não foi

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Era para ser uma escola de circo, com um curso de seis horas por dia, cheio de gente legal e alternativa, fazendo música e socializando tranquilamente na piscina com vista para as montanhas. Mas encontramos uma eterna pool party, regada a muita música eletrônica, cheia de gente doida fazendo passinhos estranhos em volta da piscina.

pai na tailândia

O cenário perfeito, porém mal utilizado | Foto: Rapha Rotta

UMA ESCOLHA ERRADA

Foi assim que começamos nossa experiência em Pai na Tailândia: com uma escolha muito, mas muito errada de hospedagem. Quando estávamos nas Filipinas, a Manu me mostrou o site do Pai Circus School & Resort, onde as informações, complementadas por um vídeo, prometiam tudo aquilo que contei nas primeiras linhas desse texto. Mas a realidade foi bem diferente, como vocês já devem estar imaginando.

Antes de mais nada, gostaria de dizer que sou adepto de festas na piscina e de bebedeiras que duram dias, em que normalmente termino como um dos mais passados. A música eletrônica e os passinhos, na minha adolescência chamados de poperô, realmente não são minha praia, mas sei conviver. Enfim, sou uma pessoa no geral aberta. Tanto que, em nosso primeiro dia, quando ainda acreditávamos que tudo não passava de um dia festivo e atípico, quando entramos na piscina para tentar socializar com nossos novos amigos tranquilos que estavam naquele dia em específico vivendo um dia de fúria, aceitamos o desafio para um briga de galo – que ganhamos com facilidade.

Mas no dia seguinte, a festa continuou. E no outro. E estava rolando até a hora que fomos embora, o que deixou claro que atípico mesmo seria um dia tranquilo. E mais atípica ainda seria uma aula de circo. Um curso completo então, com seis horas por dia, mais fácil uma vaca voar. Só não consigo entender porque prometer uma coisa que você não vai cumprir. E não, nós não nos iludimos ou entendemos errados – se você duvida, dá uma olhada lá no vídeo e depois me fala o que você achou.

Quando chegamos, fomos recepcionados por um cara que parecia ser o dono e não parecia muito sóbrio. Depois de explicar que todos (?) tinham ido fazer tubing (no Brasl chamamos de boia-cross), por isso estavam bebendo (???), ele disse que havia aulas gratuitas de circo, por duas horas. Já era diferente do que dizia o site, mas tudo bem, porque só queríamos experimentar, fazer uma coisa diferente. Mas eis que, na hora marcada, fomos ver o que estava acontecendo e vocês conseguem adivinhar quem era o professor? Se seu chute foi “o próprio doidão”, certa resposta. Se você imaginou um cara de óculos escuro, rodando malabares ao som de um eletrônico da pesada, na mosca.

De novo, nada contra nada disso, cada um que faça o que preferir e que sejam felizes todos. Mas como você se sentiria, se comprasse uma passagem para o Woodstock, mas fosse parar no Spring Break?

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A ponte que corta a cidade de Pai | Foto: Rapha Rotta

AS CONSEQUÊNCIAS DE UMA ESCOLHA ERRADA

Imagine você que pagamos o dobro do que podíamos ter pago em um bangalô muito melhor do que o nosso (gastamos pouco mais de R$ 60 por dia). E não vou ficar me alongando e reclamando, mas também não posso deixar de contar que foi o pior bangalô de toda a viagem – e olha que já nos enfiamos em muitos buracos. Só como curiosidade, dividimos banheiro com uma comunidade de lesmas.

Com isso, nossa verba para fazer outras coisas ficou limitada, o que a princípio não nos preocupava, quando imaginávamos passar o dia no hotel (na “aula”), mas se tornou um pesadelo quando nos vimos diante de uma vontade imensa de não ficar ali, nem por um minuto. Infelizmente o lado financeiro levou a melhor e participamos da festa, passivamente, por muito mais tempo do que gostaríamos. Nem trabalhar conseguíamos, por uma questão de falta de espaço e capacidade de concentração em meio a tudo aquilo.

O QUE TEM PARA FAZER EM PAI NA TAILÂNDIA

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O centrinho é cheio de tudo o que se pode imaginar para turistas | Foto: Manu Pontual

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E a noite fica tudo iluminado | Foto: Manu Pontual

Lá no alto das montanhas, os templos não são as principais atrações de Pai na Tailândia: a natureza, essa sim, é o grande destaque, em forma de cachoeiras, um cânion, plantações de morango e muito turismo relacionado aos animais – mas, vale o alerta, pelo que percebemos, não é do tipo consciente que incentivaríamos alguém a participar (leia mais sobre a nossa experiência com elefantes em Chiang Mai e entenda mais).

Nós adoraríamos ter trocado toda a festa por uma boa dose de imersão na natureza, mas aí chegamos a um outro problema: como chegar até esses lugares. No geral, as pessoas alugam motos e vão por conta, mas nós, já comentamos aqui antes, não somos adeptos, por uma combinação de medo e inexperiência. Portanto, tínhamos que recorrer a outros meios, como taxis, que são bem caros – pelo menos para o nosso bolso.

O que fizemos, então, foi o escolher as duas coisas que mais queríamos e combinar em um passeio de uma tarde, para também não sairmos ser ter conhecido absolutamente nada. Nossos destinos foram a cachoeira Pam Bok, bem bonita e com uma pedra muito legal de onde pular na água, e o cânion Kong Lan, com uma formação impressionante, onde vimos um lindo pôr-do-sol. Ambos foram incríveis e, na medida em que funcionaram como uma espécie de oásis, também nos deixaram ainda mais arrependidos pela decisão que nos levou à falência momentânea e nos deixou sem a possibilidade de fazer mais.

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A cachoeira Pam Bok era bem legal | Foto: Rapha Rotta

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Era alto… | Foto: Manu Pontual

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…e dava bastante aflição ficar assim na ponta | Foto: Rapha Rotta

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Mas o pôr-do-sol foi irado | Foto: Manu Pontual

SE ARREPENDIMENTO MATASSE…

…eu continuaria vivo, porque acho que a experiência vale como aprendizado. Devia ter feito uma pesquisa mais aprofundada que mostrasse que nada do que o site do “circo-escola” dizia era verdade. Confiamos nessa como única fonte de informação e quebramos a cara. Isso prejudicou todo o restante da nossa passagem pela cidade, além de terem nos proporcionado dias que, pela primeira vez na viagem, demoraram a passar. Mas faz parte.

Se você for a Pai na Tailândia, tiver a intenção de ficar no Pai Circus School, e por acaso cair nesse texto, vou ficar feliz de saber que te contei a verdade, para que você possa tomar uma decisão consciente. Tenho certeza de que a frustração não acontece só com a gente, pois vimos e conversamos com outras pessoas tão deslocadas quanto estávamos.

Por outro lado, se a sua intenção for festa e você não for do tipo exigente com o lugar onde vai dormir (além de amigo das lesmas, é claro), pode ser uma alternativa legal, sim. Porém, uma dica: não-hóspedes podem frequentar o espaço por 100 baths por dia (algo como R$ 10), então dá para dormir em um lugar mais limpo e confortável, mas participar da festa mesmo assim.

SOBRE VOLTAR PARA FAZER DIFERENTE

Além de tudo isso, ainda me decepcionei um pouco com a cidade como um todo. Pai na Tailândia foi um hub de movimentos de contracultura no passado e eu esperava encontrar ainda algum legado de tudo isso, mas a verdade é que me deparei com um destino que usa o conceito “quero ser hippie” como uma isca para atrair turistas – vide minha não experiência com o circo. Portanto, minha experiência foi realmente abaixo das expectativas e eu não colocaria a volta para lá na minha lista de prioridades. Por outro lado, experiências diferentes geram histórias e percepções diferentes, então vai saber se um dia eu não vou parar lá de novo.

O que achou? Conta aqui pra gente :)

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Sobre o autor

Rapha Rotta

Sócio-fundador da Plot, se apaixonou por viajar quando mochilou pela Europa e, desde então, não parou mais: depois de alguns lugares na América do Sul e outros da América Latina, hoje vive no sudeste asiático, onde tenta comprovar a teoria de que é possível, sim, "viver de viajar".