Paris – à bas com a cultura do cool

0

O que eu mais adoro odiar no Instagram é que, lá, o mundo é lindo, a vida é boa, cozinhar é fácil, e a felicidade pode ser enquadrada num pedacinho de imagem de pouca resolução. Em geral, não há dor, não há incerteza, não há provação. Isso não nasceu, é claro, com o Insta way of life, mas com a própria fotografia doméstica. Mas estamos na era das redes sociais, e, no Instagram, até o feio fica bonito. E tudo vira cool.

Cartaz que diz "Eu amo que me olhem, mas não que me encostem. Obrigada" | Foto: Bia Rodovalho

Cartaz que diz “Eu amo que me olhem, mas não que me encostem. Obrigada” | Foto: Bia Rodovalho

Paris é um dos objetos dessa cultura que define o que é descolado e trendy e da moda e moderno e pós-moderno e…. Recentemente, descobri um mundo de franceses e expatriados (sobretudo expatriados*) que constróem e afirmam uma certa imagem da cidade e de suas próprias vidas na internet (e lucram com ela, é óbvio). Nesse mundo de instagrams e blogs, Paris é um sonho. Não há pobreza, não há aglomerações, não há sujeira. Ninguém transpira no verão. No inverno, usa-se sapatilha. Não há tiozões em seus grupos de turistas. Ninguém pega o metrô às 18h00. Brunchs, “coffee dates” e muitos “dates” tomam todo o calendário. Ninguém reclama. De nada. Achar um apartamento intramuros (e fora também) parece fácil (ou quase – qualquer dificuldade é dissimulada ou reduzida). Vive-se de éclairs, macarons, chocolats chauds. Vive-se o cool de Paris, estampa-se e dita-se o que é in na cidade.

Mas é difícil deixar fora de quadro as latas de lixo do Tuileries. Para se fotografar a Torre Eiffel com pouca gente, o rendez-vous tem que ser antes das 07h00. A cerveja do happy-hour é cara. O chá é caro. Tudo é caro. Ser cool é tão caro. Meu Deus, da onde vem o dinheiro?

O que se exibe nesse tipo de plaforma é justamente um microcosmo de privilegiados que encobre toda a diversidade que constitui Paris. Cria-se uma cidade postiça. Não exijo que essas pessoas façam uma análise sociológica em insta-moments nem que passem a narrar em 140 caracteres o que não querem. Eu mesma não mostro em meu instagram uma foto da funcionária grossa da padaria, nem de quando o RER quebrou mais uma vez, nem do antibiótico que eu estou tomando. E confesso: já tentei fazer como eles e fiquei com vergonha de mim mesma depois – que fraude!, diante dos meus 167 seguidores… Ora, eu não tenho 3.000, 10.000, 500.000… Ninguém consome minhas imagens, tampouco a imagem pública que eu construo da minha vida lyfestyle na França. Apenas exponho aqui minha irritação. Registro minha revolta com essa insistência em uma imagem perfeita da vida – e da vida parisiense. Onde estão les perrengues? Mais perrengues e altos e baixos e dúvidas e descobertas e inconstâncias, s’il vous plaît!

* Sobre a diferença entre expatriado e imigrante: http://www.theguardian.com/global-development-professionals-network/2015/mar/13/white-people-expats-immigrants-migration

O que achou? Conta aqui pra gente :)

Compartilhe:

Sobre o autor

Bia Rodovalho

Brasileira, 29 anos, pediu asilo político na França. Foi parar no subúrbio de Paris. É gauche na vida, feminista e portadora de SII. Pratica yoga às segundas-feiras com um grupo de aposentados. Sua persona acadêmica é mais séria que isso. Bia Rodovalho não é cool.