Uma viagem no tempo: as ruínas de Angkor, no Camboja

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Há 1213 anos, um pessoal construiu uma megacidade chamada Angkor, numa área do que hoje é o Camboja (e um pouco de Tailândia, também, vale dizer) – era o pessoal do império Khmer, que abrangia grande parte do Sudeste Asiático. Lá, além de “casas” e “prédios” que a cidade precisa para funcionar, esse pessoal construiu uma infinidade de templos, com tamanhos, detalhes, motivos e arquitetura variados. A civilização oficialmente angkoriana existiu de 802 até 1431, quando uma invasão fez a população migrar para outras regiões, e abrigou pelo menos 0,1% da população mundial na época – estima-se em mais de 1 milhão de pessoas. Quer dizer, não foi pouca coisa. O império Khmer foi um dos mais importantes de sua época, Angkor foi a maior cidade pré-industrial do mundo e seu principal templo, o Angkor Wat, é o maior monumento religioso do mundo. Haja grandiosidade nessa história!

Descoberto pelos portugueses em 1586, a restauração dos templos de Angkor só teve vez no século XX, e levou mais de 70 anos, mas só uma parte deles teve esse privilégio – ao total, juntando restaurados e não restaurados, são mais de mil templos. Ainda hoje, muito do que vemos são ruínas e pedras espalhadas pela região.

A grandiosidade dos templos, os detalhes das construções, a ideia de que aquilo tudo já foi habitado num tempo muito distante de nós – tudo isso contribui para que a visita seja arrepiante, emocionante e bem da mística, viu? Me senti minúscula perto daquilo tudo, e minha cabeça girava tentando entender (adivinhar?) como a sociedade funcionava na época, quem passava por aqui, quem fez pedidos (o que pediu?) aos deuses naqueles templos e, principalmente, como foram capazes de construir prédios daqueles tamanhos, com tantos detalhes encravados e significados ocultos, sem ter uma maquininha sequer pra ajudar? Como será que eles faziam? Maquetes? Desenhos? Tudo isso passava na minha cabeça enquanto eu ia encontrando e desvendando os diferentes templos, cada um a seu tempo. Não dá para negar: visitar Angkor tem uma misticidade única, uma energia especial. Apesar do preço salgado (especialmente quando comparado com atividades na Ásia), vale muito à pena todo o centavo e cada minuto que você puder dedicar por lá. Para coroar, os cenários são incríveis para brincar com a máquina fotográfica e fazer várias fotos legais! Abaixo algumas dicas para aproveitar melhor sua visita às ruínas de Angkor.

OS TEMPLOS QUE MAIS GOSTAMOS

Com um dia e meio de visitação, não conseguimos ver todos os templos, mas conseguimos ter uma boa noção deles.

De todos os que visitamos, o que mais gostei foi o Pre Rup, porque ele era bem alto, o que proporcionava cenários incríveis com as torres do templo e a paisagem de vales e florestas por trás. Além disso, a altura também proporcionava uma ventilação extra que foi super bem-vinda.

O Angkor Wat, principal templo do complexo, dispensa comentários: ele realmente é impressionante e cheio de energia. Porém, como pode-se imaginar, fica lotado de gente em quase todos os horários, e a melhor forma de ve-lo um pouco mais tranquilamente é cedinho pela manhã: mesmo que você não vá ver o nascer do sol, tente chegar por volta das 7h.

O Ta Phrom é o templo que serviu de cenário para o Tomb Raider, e por isso é famosíssimo – o que resulta em uma quantidade mais do que suficiente de pessoas por lá. Não desvendamos o melhor horário para visitar, então o melhor a fazer aqui é ter paciência e calma para evitar estresse. Cheio de raízes por todos os lados envolvendo as ruínas, o cenário justifica a lotação e o tempo dedicado a explorá-lo.

Já o Ta Som é um outro templo devorado por raízes de árvores gigantes, porém bem mais vazio, o que faz dele um cantinho especial. Dê-se tempo para explorar os cantinhos mais remotos e dar a volta, além de ir até o portão de trás, onde há uma imensa árvore em cima de uma muralha. É incrível.

Neak Poam é um dos templos em que o que menos impressiona é o templo em si: ele fica em uma espécie de ilhota no meio de um lago enorme, e o caminho até lá é magnífico, passando por uma ponte de madeira, com um cenário que se diferencia muito de todo o resto que vimos nas ruínas – e isso, acreditem, é muito bem-vindo em um dia cheio de templos e ruínas.

Preah Kan foi um dos templos onde mais ficamos. Já era o fim do nosso passeio, estávamos exaustos por causa do dia puxado, e nosso plano era só dar uma passadinha: mas tem tanta coisa para ver lá dentro que não conseguimos nos desvencilhar! São 4 corredores (norte, sul, leste e oeste) que se abrem para diferentes espaços: a biblioteca, por exemplo, é um deles, um salão de dança, a área onde fica a raiz que parece uma tromba de elefante. Se você tiver decidido visitar as ruínas de Angkor sem um guia, vale a pena conversar com os guardinhas que ficam no vão central do Preah Kan, pois eles se prontificam a explicar alguns detalhes do templo, o que faz uma boa diferença. Ao final, eles pedirão uma doação, e sinta-se à vontade para faze-la ou não. Nós fizemos, já que apreciamos a explicação e o tempo dedicado a nós.

Bayon é mais um dos templos super famosos, mas que nos impressionou bastante. Infelizmente estava chovendo muito quando fomos lá, mas isso não nos impediu de se perder nos corredores dos dois andares inferiores, que tinham alguns budas aqui e ali, misticamente iluminados e decorados, e de explorar o andar superior, onde dá para ver mais de pertinho as inúmeras faces cravejadas em suas torres. É de impressionar

Banteay Srei foi um arrependimento, pois não fomos até lá. É unânime o sentimento de quem vai: é um dos mais impressionantes de Angkor, e não dá para perder! Não espere a grandiosidade dos outros: aqui o que se destaca é a riqueza dos detalhes de sua construção e a coloração rosada de suas pedras. Ah, não podemos esquecer, ele é conhecido como o templo das mulheres!

Preah Kan, Angkor Wat, Camboja

O Rapha ali de boas observando o movimento no templo Preah Kan | Foto: Manu Pontual

Preah Khan, Angkor Wat, Camboja

A raiz de árvore que parece tromba de elefante, no Preah Khan! | Foto: Manu Pontual

Preah Khan, Angkor Wat, Camboja

Antiga biblioteca no Preah Khan | Foto: Manu Pontual

Neak Poan, Angkor Wat, Camboja

Neak Poan, um templo pequenino, simples, mas encantador | Foto: Manu Pontual

Angkor Wat, Camboja

Torre do topo do Angkor Wat | Foto: Rapha Rotta

East Mebon Temple, Angkor Wat

Brincando de fotografia nas ruínas do Pre Rup Temple | Foto: Mundo Plot

Uma das inúmeras figuras do Buda que permeiam as ruínas de Angkor, no East Mebon | Foto: Manu Pontual

Uma das inúmeras figuras do Buda que permeiam as ruínas de Angkor, no East Mebon | Foto: Manu Pontual

East Mebon Temple, Angkor Wat

O Rapha explorando o East Mebon | Foto: Manu Pontual

Ta Som Temple, Angkor Wat, Camboja

Incríveis faces cravadas nas pedras adornam os templos das ruínas de Angkor | Foto: Manu Pontual

Ta Som Temple, Angkor Wat, Camboja

Entrada do Ta Som Temple, nas ruínas de Angkor, no Camboja | Foto: Manu Pontual

East Mebon Temple, Angkor Wat, Camboja

O incrível Pre Rup | Foto: Manu Pontual

Angkor Wat, Camboja

Monge descansando nas ruínas do Angkor Wat | Foto: Manu Pontual

Angkor Wat, Camboja

Detalhes das gravuras do Angkor Wat | Foto: Manu Pontual

Angkor Wat, Camboja

Detalhes das gravuras do Angkor Wat | Foto: Manu Pontual

Angkor Wat, Camboja

Monges chegando ao Angkor Wat | Foto: Rapha Rotta

COMO VISITAR

Bom, em primeiro lugar: fique em Siem Reap. Algumas pessoas escolhem hotéis próximos de Angkor e afastados da cidade, mas essa escolha não faz sentido mesmo que você tenha pouco tempo por lá – além de Siem Reap ser uma cidade bem legal, o complexo fica a apenas 5km de distância, então não é tanto tempo assim.

Em seguida, você precisa escolher seu meio de transporte. Qualquer que seja, contrate-o pelo dia inteiro ou pelas horas que você decidir ficar em Angkor. O complexo é imenso e não dá para passear por lá à pé. As opções que você tem são:

  • tuk tuk: custa cerca de U$ 15 por dia e pode ser dividido em até 4 pessoas (é possível que o motorista cobre algo a mais para levar 4). Esta foi a opção que escolhemos, mas sugerimos fortemente pegar indicação no hotel e garantir que seu motorista fala um bom inglês, para que possa se comunicar e combinar o trajeto da forma que você preferir – caso contrário, ele te levará ao mesmo roteiro que todos os turistas fazem, nos mesmos horários, o que vai resultar em caos na sua visita.
  • bicicleta: uma bicicleta por um dia custa por volta de U$2 dólares e é uma opção legal se a) você é atleta ou super bem condicionado; ou b) se você tem tempo à disposição e quer experimentar um dia diferente de visitação. Isso porque o complexo é grande e você não vai conseguir cobrir muita coisa apenas de bicicleta. Há de se considerar também o calor escaldante do Camboja, que mais parece uma fogueira constante. Não experimentamos essa opção, mas me pareceu bem agradável para quem pode ir com calma, apreciando especialmente o caminho e seus detalhes.
  • van: uma opção com mais conforto mas também mais turisticona, já que você dividirá a van com até 12 pessoas. Por isso, também não te permite personalizar o roteiro e fazer os templos no seu tempo.

SEU ROTEIRO NAS RUÍNAS DE ANGKOR

As ruínas de Angkor são tradicionalmente divididas em dois roteiros: o grande e o pequeno.

O pequeno é formado pelos templos mais próximos de Siem Reap (cidade-base para visitação do complexo) e ficam a 5km da cidade e é neste que se encontram os templos mais famosos: Angkor Thom, Ta Phrohm, and Banteay Kdei e o famoso Angkor Wat. Já o maior é formado pelos templos mais afastados, distantes até 26km – sua jóia é o Banteay Srei, o templo das mulheres. Há ainda templos fora desses dois roteiros, pois são distantes demais (tipo 60km).

Cada templo e construção tem uma complexidade imensa, e pra gente foi super confuso entender tudo aquilo tanto antes quanto depois da visita, já que não contratamos um guia (se você puder, contrate um!). Por isso, aqui vão algumas dicas para se localizar e entender melhor os templos:

  • Não sei quem foi que fez o mapa de Angkor, mas assim, gente: tá ruim! Achei mega confuso. Ainda assim, veja aqui:
Mapa de Angkor Wat, Camboja

Mapa das ruínas de Angkor, no Camboja | Imagem: reprodução

A ideia, ao montar seu roteiro, é selecionar os templos que você faz questão de ir (que provavelmente serão aqueles onde a maioria dos turistas também estarão) e organizá-los de forma a fugir um pouco do caos – ou seja, não siga o fluxo dos roteiros pré-estabelecidos. De preferência, faça exatamente o oposto.

ORGANIZANDO O TEMPO

A sensação que dá é a de que dá para passar uma vida inteira explorando o Angkor e ainda assim faltar coisa pra ver! Por isso, sejamos espertos na hora de organizar o tempo. Primeiramente, não venha até aqui para ficar apenas um dia – não é que não vale à pena, mas não é justo. Aloque pelo menos 2 dias do seu roteiro para Angkor e, se puder, fique com 3. Quanto mais rápido você fizer o passeio, mais “cansado de templos” você ficará. Para curtir bem, é preciso ir com calma, deixar seus olhos perceberem os detalhes, se dar tempo para descansar, para observar, para tirar suas fotos, para conversar com quem está por lá. Além disso, evite reservar um dia inteirinho para o Angkor, pois você ficará cansado. Nós tivemos apenas 1 dia e meio, por causa de trabalho, e confesso que foi bastante cansativo. No segundo dia, chegamos lá para o nascer do sol e abortamos a missão às 15h, ainda com templos para visitar, mas já sem energia.

COMPRANDO O INGRESSO DO ANGKOR

O ticket para o Angkor só é vendido na entrada do complexo. Não vimos ninguém oferecendo tickets fora de lá mas, se te oferecerem, não compre: é proibido. Os ingressos são pessoais e intransferíveis pois, na hora da compra, você faz um cadastro com foto, que fica impressa no seu ingresso. As opções são as seguintes:

  • 1 dia: U$ 20
  • 3 dias: U$ 40 (válido por uma semana, não precisa ser usado em dias consecutivos)
  • 7 dias: U$ 60 (válido por um mês, não precisa ser usado em dias consecutivos)

#dicaplot ingressos comprados após as 16h dão direito a entrada no mesmo dia, mas são contabilizados apenas a partir da próxima utilização. Isso significa que você pode ir até lá, comprar seu ingresso, entrar e ver o pôr do sol, por exemplo, sem descontar dos dias do seu ingresso. Importante: todos os templos fecham entre 17h e 17h30.

O QUE LEVAR

Tudo lá no complexo é mais caro do que na cidade. Portanto, se você quer economizar seu suado dinheirinho, vale a pena levar água (nós levamos duas garrafas de 1,5L e ainda tivemos que comprar mais lá), além de lanchinhos (nós levamos sanduiches e salgadinhos).

Fora isso, é importante prestar atenção na vestimenta: como são templos, em alguns deles é exigido que a mulher esteja com os joelhos e ombros cobertos, e homens não devem usar regata. Nossa dica, para as mulheres, é ir com um vestido/saia/shorts mais comportado e levar uma calça leve na mochila, para colocar apenas se exigido. O calor é muito intenso e ninguém merece ficar de saia longa o dia inteiro.

Por fim, os sapatos: nós fomos de havaianas e o único problema foi a sujeira que ficou no nosso pé, já que o local é cheio de poeira e terra, mas vale pesar aqui que estamos vivendo de havaianas há 8 meses. Como anda-se muito e o piso não é nivelado (afinal, são ruínas), um tênis ou algo mais fechado vai melhor, especialmente se for em época de chuvas.

NASCER DO SOL NO ANGKOR WAT

Angkor Wat, Camboja

O incrível nascer do sol no Angkor Wat: especial | Foto: Manu Pontual

O nascer do sol no Angkor Wat é uma experiência mundialmente famosa e amplamente divulgada para os turistas. Ou seja: é lotado até o talo. Sabendo disso, nem cogitamos essa possibilidade – já nos frustramos o suficiente na nossa passagem pelo Monte Bromo e pelo Borobudur. Mas, aos 45 do segundo tempo, uma amiga do Brasil insistiu para que fôssemos, pois era uma experiência maravilhosa e muito emocionante. Ela disse que valia a pena, mesmo com a multidão.

Eu gostaria de tentar explicar para vocês como eu e o Rapha ficamos com esse tipo de decisão – dois indecisos por natureza, passamos horas debatendo, pedindo conselhos, lendo relatos e tudo mais. Até que concluímos que, bem, se for ruim, pelo menos a gente tem uma história pra contar! Resolvemos então seguir em frente e fechar a programação: acordar às 3h30 para sair às 4h com destino à felicidade. Chegamos no Angkor ainda escuro, e tivemos uma imensa dificuldade de achar o local exato de onde deveríamos ver o nascer do sol. Sei que provavelmente foi estupidez nossa, mas realmente não somos bons em acordar cedo. Por isso, deixo aqui a dica amiga: se você for nessa, saiba que precisa de fato entrar no Angkor Wat, atravessar a ponte, continuar entrando pela passarela, até chegar nos espelhos d’água.

Assim que chegamos, o desespero: havia uma montanha de gente disputando um espaço perto do espelho d’água para tirar a foto mais famosa do Camboja. Socorro. Decidimos então explorar mais um pouco, e descobrimos que, do outro lado da passarela, existe também um espelho d’água com vista para o nascer do sol, mas ninguém vai pra lá. Foi ali que escolhemos montar nossa barraquinha.

É óbvio ululante que o local que escolhemos não tem a melhor vista do nascer do sol: se tivesse, a lotação aconteceria ali. Mas a única diferença é a existência de umas árvores a mais, que nós consideramos uma troca justa, visto que conseguimos sentar (não rolava sentar do outro lado), tirar todas as fotos que queríamos, ver o nascer do sol com calma, sem nenhum barulho, e ainda conseguimos meditar. Vejam bem, conseguimos meditar. Era muito mais calmo e tranquilo, e muito mais “a cara do nascer do sol” do que o aglomerado de pessoas do outro lado. Por tudo isso, eu recomendo essa opção. E sim, eu recomendo ver o nascer do sol no Angkor Wat.

Superando o fato de acordar cedo e de lidar com um monte de gente a essa hora da manhã, é realmente especial ver o sol nascendo e iluminando as torres do Angkor Wat, nessa atmosfera de encantamento e magia.

O que achou? Conta aqui pra gente :)

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Sobre o autor

Manu Pontual

Sócia-fundadora da Plot, Manu é aquariana de corpo e alma. Apaixonada por viagens e por mudanças, largou tudo que tinha de fixo na vida para morar na Ásia, na busca por um modelo de vida e trabalho que tenham mais a ver com a sua essência.

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