Siem Reap, no Camboja: de vilarejo a um dos melhores destinos do mundo

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Pense nas cidades do sudeste asiático conhecidas principalmente por oferecerem uma imersão nos acontecimentos do passado e responda à pergunta: quem veio primeiro, a história ou o turismo? Diferente de muitas, a resposta mais adequada para falar de Siem Reap, no Camboja, seria a segunda. O turismo chegou antes.

Imagine você que o complexo de Angkor, um dos maiores empreendimentos religiosos da história da humanidade, manteve-se “oculto” até o início do século 20, quando os franceses o “descobriram” e iniciaram seu processo de revitalização. Tudo assim, entre aspas, porque:

  1. seria ingenuidade acreditar que os locais não sabiam de mais de mil templos que estavam embrenhados no quintal de casa.
  2. os portugueses chegaram antes, em 1586, só não foram bem sucedidos na tarefa de reconstruir a área, contar para o mundo e levar os créditos.

De qualquer forma, ponto para os franceses que em 1901 empreenderam uma expedição ao Bayon, um dos maiores e mais importantes templos do complexo, com o intuito de restaurá-lo. Atitude legal, sem dúvida, mas com um propósito bastante claro: desenvolver turismo em torno disso. E rápido. Prova disso é que, no mesmo ano, já havia 200 sortudos visitando essa relíquia tão impressionante que hoje deve contabilizar mais de 200 pessoas por metro quadrado.

Os planos franceses tinham, porém, uma questão a resolver antes de abrir, de fato, o complexo de Angkor para o mundo: onde enfiar os turistas que quisessem visitá-lo? Nos arredores havia muita selva, um pequeno vilarejo aqui e ali, mas nada que pudesse acomodar viajantes. Então, a solução foi praticamente criar uma cidade: a Siem Reap que não passava de uma desses vilarejos, localizada a menos de 10 km, e hoje figura entre as mais procuradas da Ásia – terceiro melhor destino turístico do mundo, segundo o Travel+Leisure World’s Best Awards 2015.

Um título como esse poderia não significar muita coisa – particularmente, tenho pé atrás com premiações desse tipo, especialmente depois de conhecer Kuala Lumpur, que é uma das novas 7 Cidades Maravilhosas do Mundo, de acordo a UNESCO. Mas, no caso de Siem Reap, eu tiro o chapéu, como faria para qualquer outra cidade do Camboja que ocupasse o posto. Calma que explico o porquê.

Faz apenas 40 anos que o país passou por uma das maiores atrocidades da história da humanidade: um genocídio que dizimou três de cada oito pessoas, comandado pelo Khmer Rouge, o partido comunista que, liderado por um lunático chamado Pol Pot, deu um golpe de estado, prometeu uma vida melhor para a camada mais pobre da população e tocou o terror, literalmente. Portanto, ver Siem Reap entre os principais destinos turísticos do mundo, tão pouco tempo depois de ter sido esvaziada e praticamente reduzida a pó é, pelo menos na minha opinião, de aplaudir de pé.

Ao mesmo tempo, também fico com uma pulga atrás da orelha ao pensar que um lugar tão bem-sucedido do ponto de vista turístico, que cobra caro por isso, faça parte de um dos países mais pobres do mundo. Com um visto que é caro, o Angkor Wat que é mais caro ainda e todas as outras coisas sendo pagas em dólares americanos, que é a moeda que circula por lá para os turistas, onde vai parar esse dinheiro? Assunto para outro post, mas fica no ar aquele cheirinho de corrupção que conhecemos tão bem.

O QUE ESPERAR DE SIEM REAP?

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Vai uma flor? | Foto: Manu Pontual

Em primeiro lugar, uma ótima base para conhecer o complexo de Angkor, que fica a menos de 10 quilômetros de distância. Existem incontáveis agências que organizam passeios para lá, sem contar os hotéis, que também podem ajudar com isso. Para os viajantes mais independentes, que não gostam de pacotes, ainda dá para negociar diretamente com um dos muitos motoristas de tuk-tuk que abordam as pessoas insistentemente pelas ruas e até alugar uma bicicleta – que, no entanto, pode ser bem cansativo, já que apesar da entrada ser próxima, o complexo em si é gigantesco.

Nós não fomos, por questões logísticas somadas a muito trabalho, mas todo mundo que vai diz que vale conhecer o Landmine Museum, que fica nas imediações de Siem Reap. Durante a catástrofe comunista, milhares de minas foram distribuídas ao longo do país como forma de inibir o deslocamento livre da população. O museu conta essa história e arrecada fundos para associações que ajudam quem foi impactado – é muito comum ver pessoas com membros amputados ao redor do país. Muitas dessas minas, ainda hoje, estão ativas, já que não foram encontradas para que possam ser desativadas. Por isso, algumas pessoas ainda sofrem com as explosões e é preciso tomar muito cuidado em áreas remotas, já que o risco ainda é iminente.

Tirando isso, não espere se deparar com a mais pura cultura do Camboja ou com outras atrações relacionadas à história. Siem Reap faz jus ao fato de ter sido criada para atender o turismo e oferece, portanto, o turismo em sua versão mais fabricada. A quantidade de letreiros de luz neon deixa isso bastante evidente.

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A entrada da Pub Street e os muitos letreiros luminosos | Foto: Manu Pontual

Para começar, tem a Pub Street, que pelo nome já dá para imaginar do que se trata: uma rua cheia de bares e baladas totalmente ocidentalizadas, com promotores nas portas oferecendo flyers que dão direito a shots gratuitos ou convidando os turistas para os internacionalmente promovidos pub crawls (para quem não conhece, um passeio que leva um grupo uniformizado de bar em bar, com uma bebida inclusa em cada um).

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O mercado de artes por dentro | Foto: Manu Pontual

Depois, também vale mencionar os mercados, que são clássicos no sudeste asiático: é difícil uma cidade que não tenha. No caso de Siem Reap, são três: o Old Market, que fica aberto o dia todo, e dois noturnos, o Angkor Night Market e o Art Center Night Market – para chegar nesse aqui, uma coisa legal é o caminho, que inclui uma ponte totalmente iluminada passando sobre um rio, que tem um efeito visual bem bonito. Competem com eles as diversas outras lojas que vendem os mesmos tipos de artesanato, arte, souvenirs, roupas e afins.

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Bonito, né? | Foto: Manu Pontual

Além disso, existem os espetáculos de música e dança que são promovidos como uma alternativa para quem quiser ver algo local, ou os passeios de barco pelo rio que corta a cidade (o mesmo que é preciso cruzar para chegar ao mercado noturno). Considere porém pagar caro por atividades como essas, como aconteceria em qualquer lugar onde o turismo é o ganha-pão da população.

Por falar nisso, tem outra coisa que me deixou pensativo durante a visita a Siem Reap: a desproporcionalidade entre a oferta e a demanda. Não porque a demanda é muito maior que a oferta, mas o contrário. Tem muito mais gente oferecendo alguma coisa do que gente para comprar. Isso vale para os motoristas de tuk-tuk, que passam o dia na rua abordando as pessoas, para os restaurantes, que nunca estão cheios (quando não às moscas), para os hotéis, que – pelo que conversamos com o dono do que estávamos hospedados – dificilmente chegam à sua capacidade máxima. A sensação que dá é de que o turismo se mostrou uma grande oportunidade para muita gente, mas que o resultado não foi assim tão promissor quanto todos esperavam. Se tivesse sido, não haveria tanta gente pedindo esmola nas ruas e a pobreza não seria tão evidente, né?

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Old Market em Siem Reap | Foto: Manu Pontual

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Sobre o autor

Rapha Rotta

Sócio-fundador da Plot, se apaixonou por viajar quando mochilou pela Europa e, desde então, não parou mais: depois de alguns lugares na América do Sul e outros da América Latina, hoje vive no sudeste asiático, onde tenta comprovar a teoria de que é possível, sim, "viver de viajar".