Sobre o medo

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A coluna “Eu vou sozinha” está aqui para quebrar o tabu e inspirar mulheres a viajarem sozinha – seja para desbravar, para se conhecer, para sair da zona de conforto ou só porque não conseguiu uma companhia para as férias. Vamos entrar na corrente por um mundo mais aberto e seguro em que todas nós possamos transitar sem esquentar a cabeça! Essa semana, Fernanda Luz fala sobre o medo:

Quando eu decidi que iria viajar pelo mundo sozinha, me achei a mulher mais corajosa do mundo. Afinal, largar tudo pra trás e ir pelo mundo sem destino não é coisa que um medroso faria né?? Bora lá, então!!

Aí, achando que isso iria super me ajudar, eu pesquisei zilhões de sites de viagens, blogs, embaixadas e várias outras fontes. Achei que se soubesse tudo (há há há) iria ficar mais tranquila.

Durante a viagem, o medo tomou conta de mim várias vezes… E não foi só quando eu cheguei em países desconhecidos, não. Meu primeiro destino foi os Estados Unidos. Já tinha ido pra lá três vezes, já tinha até morado lá, falo inglês, então tá de boa né, o medo vai passar longe, pode ter certeza. Ahãm, tá. Só que a vida real não é assim.

Desde a chegada em Miami, na fila da imigração, com dúvidas bobas sobre se eu conseguiria entrar (“Meu Deus, mas eles vão me perguntar se eu tenho um emprego no Brasil e eu não vou conseguir mentir e eles vão ver que eu não tenho e vão me mandar de volta e que vergonha que vai ser isso” e opa, já acabou, já tô com o carimbo e posso entrar? Ah, valeu!)… Medo dos moradores de rua que não estavam nem aí pra mim (“Meu Deus, eu sou doida de chegar aqui nesse lugar estranho a essa hora, olha só essa saída de metrô cheia de gente esquisita, vão me roubar tudo e tirar meus órgãos” e opa, já tô em casa? Ah, valeu!). Medo de não conseguir me comunicar direito (“Meu Deus, essa pessoa vai me perguntar uma coisa e eu não vou saber responder e vou ficar o resto da viagem sozinha pra sempre” e opa, já estamos conversando há tempos e até já somos amigos? Ah, valeu!)…

Tanto medo que logo no início eu cheguei a pensar que talvez não quisesse mais viajar – sabe como é né, talvez não seja preciso conhecer tantos lugares, só um pouquinho já tá bom e aí eu volto logo pro Brasil (digo, pra zona de conforto).

Mas eu logo percebi que isso era medo bobo, então não dei muita bola e toda vez que vinham esses pensamentos eu pensava em coisas boas, mudava o foco, fazia uma respiração mais profunda pra dar uma acalmada e aliviar o estresse.

Quando estava indo embora de Miami, enquanto ia pro aeroporto o medo veio, assim que pensei que passaria novamente pela imigração do Canadá e tb pela americana na volta – e imaginei quantas vezes mais na viagem eu teria aceitar a sensação de impotência, de não estar no controle, de ter que me submeter ao julgamento que outras pessoas fazem sobre mim. Uma vozinha lá dentro da minha cabeça falava “onde já se viu, pra que ficar passando por isso menina, volta pra casa, volta para aquilo que você já conhece ”. O medo estava vindo com força, e enquanto seguia meu caminho em direção ao portão de embarque, olhei pro lado e vi um mural lindo todo escrito em flores, que dizia “Peace & Love”. Paz e Amor. Isso ficou ecoando dentro de mim. Aí pra fechar, quando entrei no avião e achei meu lugar, descobri que era na executiva. Ou fiz uma merda danada na hora de reservar, ou resolveram me dar um upgrade! Juro que eu comprei a tarifa mais barata disponível!!  Rs

Sorri sozinha e entendi a mensagem. Paz e Amor. É o que é. Acolhi meu medo. Parei de resistir a ele… É óbvio que ele se fez presente em tantos outros momentos dessa viagem… Mas quando ele vinha, eu pegava ele no colo e falava “obrigada queridinho, sei que você acha que está me protegendo, mas eu não vou viver numa redoma de vidro só pra não correr riscos.  O mundo é lindo demais pra eu não seguir meu coração. Obrigada, de nada, agora pode ir.”

E assim foi. Durante os cinco meses. Na passagem pelos 17 países. Ele vinha, eu aceitava, acolhia, e ele ia embora. Porque por mais que eu quisesse controlar tudo, sempre tinha alguma coisa que saía diferente. Afinal – controle?? Quem disse que temos controle de alguma coisa???

 

O que achou? Conta aqui pra gente :)

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Sobre o autor

Fernanda Luz

Depois de alguns anos batendo cabeça pra tentar se encaixar no mundo corporativo, deixou tudo pra trás, tirou um período sabático e foi conhecer um pouco desse mundão. Passou por 17 países e enquanto viajava foi percebendo que mais importante do que o destino, era a coragem de se jogar no desconhecido. Entendeu que tem sempre algo novo pra ver, mesmo que a gente esteja olhando pra uma velha paisagem que já faz parte da nossa história.