Reflexões sobre os últimos ataques em Paris

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O que fazer diante da tragédia e do terror?

Nos últimos dias, assistimos a diversas manifestações do horror no Brasil e no mundo (tragédias ambientais, sociais e políticas, causadas por uma lógica de destruição do outro – seja o homem, seja a terra). Mas vou me concentrar sobre os ataques ocorridos em Paris ontem.

Como agir diante da barbárie?

No Brasil, estamos acostumados com a barbárie (ainda que ela seja em grande parte designada à invisibilidade – ela é cotidiana, por exemplo, nas favelas e nas tribos indígenas ameaçadas, onde é perpetrada pelos próprios representantes do poder). Vivemos num estado de alerta constante – temos medo de sermos assaltados, estuprados, assassinados.

O medo que eu senti aqui em janeiro, e agora de novo, é um medo de outra ordem. É um medo da violência e da morte, é claro, e da arbitrariedade desses atos. É o medo do horror. Mas é também um medo de ver um mundo ameaçado, de ver uma concepção do mundo ameaçada – de ver a tal liberté, tão precária, colocada à prova. É um medo da guerra. É um medo da intolerância, do ódio e da destruição tomarem os espíritos e as armas. Como não ter medo?

Ora, mas é isso o que eles querem. É pelo terror que o fundamentalismo confunde, divide, esmaga. É no nosso desespero que o fundamentalismo prospera. Pretende-se dividir e radicalizar a Europa.

Nosso maior desafio agora é não responder ao ódio com ódio. Nosso maior desafio é defender a tolerância, o respeito, o amor. É defender a tal da liberté, é agir em fraternité. É continuar a viver e a lutar. Porque é preciso lutar.

Reflexões sobre os últimos ataques em Paris

Um dos desenhos de Joann Sfar (@joannsfar): “A França é um velho país onde os amantes se beijam livremente” | Foto: Joann Sfar

A VIDA DOS OUTROS: UM CAMBOJANO, UM TÁXI…

Le Petit Cambodje. Por acaso, esse é o nome de um dos restaurantes atacados na noite de ontem. A passagem da Manu e do Rapha pelo Camboja me fez lembrar um encontro que tive em abril.

Depois de uma longa viagem de volta do Brasil, cheguei à França cansada e ansiosa, com dor no pé, dor de barriga. Decidi pegar um táxi do aeroporto para a casa.

Da onde você é?, pergunta-me o taxista. Do Brasil, respondo. Depois de conversarmos um pouco sobre o país, notei que ele também tinha um sotaque e, apesar da timidez, perguntei da onde ele era. Do Camboja.

Tinha chegado à França com 12 ou 13 anos, com os irmãos e a tia – eram sobreviventes do genocídio. O resto da família tinha sido morta pelo Khmer Vermelho.

No Vietnã, no campo de refugiados por onde eles passaram, eles pediram asilo político aos Estados Unidos, ao Canadá e à França. A França respondeu primeiro, e então, em 1980, eles vieram.

Ele era engenheiro de informática em uma empresa, mas decidiu sair em 2013. Queria trabalhar por conta própria, mas a crise deixou as coisas mais difíceis. No ano passado, ele decidiu então ser taxista. Quer ter o próprio táxi, mas o banco não o concede um empréstimo para pagar a licença. Por enquanto, trabalha para uma empresa de táxis.

Estar diante daquele homem – daquele sobrevivente – deixou-me sem palavras. Revirou-me por dentro (e a dor de barriga passou imediatamente). O trauma era dele e era eu que estava afásica.

Sem saber como agir, o que dizer (o que dizer?), eu (talvez como todo clichê de “gente de cinema”) perguntei se ele conhecia os documentários do Rithy Panh.

Eu vi “S21” (ou era outro?), ele me disse. Mas não gostei, o filme trouxe de volta lembranças que eu passei mais de 30 anos tentando esquecer.

Em 2009, ele voltou ao Camboja. O país tinha mudado muito. Diante da muita pobreza e da vida dura, ele se surpreendeu com a capacidade da gente de sorrir e de dar um jeito (acho que temos algo em comum, disse a ele, referindo-me ao Brasil).

No Camboja, será que se sorri por resistência ou por esquecimento?

De qualquer forma, a humanidade tem essa mania de repetir a história, de trazer de volta o horror. É preciso lutar.

O que achou? Conta aqui pra gente :)

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Sobre o autor

Bia Rodovalho

Brasileira, 29 anos, pediu asilo político na França. Foi parar no subúrbio de Paris. É gauche na vida, feminista e portadora de SII. Pratica yoga às segundas-feiras com um grupo de aposentados. Sua persona acadêmica é mais séria que isso. Bia Rodovalho não é cool.

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