Uma experiência especial no templo da montanha de Chiang Mai

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Conta a história que um monge chamado Sumanathera teve o sonho, que o dizia para procurar, na área remota de Pang Cha, uma relíquia. Ele o fez e encontrou um osso, que se acreditou pertencer ao próprio Buda. Ele o levou ao rei Dhammaraja, que governava Sukhotai, mas as propriedades mágicas esperadas do artefato não se manifestaram e assim a história caiu em descrédito.
O rei Nu Naone, governante do reino de Lanna, região que hoje corresponde a Chiang Mai, porém, ao tomar conhecimento dos acontecimentos, pediu permissão para ver a relíquia e, em sua presença, ela se dividiu em duas partes, atestando assim seus poderes. Uma delas, foi consagrada em um templo em Sukhotai. A outra, foi deixada nas costas de um elefante branco, que foi liberado na selva e correu até o topo do monte Doi Suthep, onde três sons com sua tromba e caiu morto. Isso foi considerado um presságio de que aquele seria um lugar sagrada e assim iniciou-se a construção do Wat Phra That, também conhecido como templo da montanha.

Bastou sabermos disso para que a visita ao Wat Phra That, o templo da montanha de Chiang Mai, se tornasse algo obrigatório em nossa passagem pela cidade. É verdade que o que não faltam por ali são templos que, diferentemente desse aí, são bem mais próximos de onde estávamos hospedados, portanto bem mais acessíveis, além de menos cheios. Mas alguma coisa, além de nove em cada 10 pessoas que nos davam recomendações do que fazer, engrossava o coro que nos dizia: vá, vai ser especial. E foi mesmo.
Embora você possa imaginar o contrário, o fato de muita gente falar “meu, você tem que ir” não é algo que vemos assim, com tanta empolgação. E não porque não confiamos na opinião alheia, não é isso. Mas é que quando alguma coisa é tão amplamente recomendada, como é o caso do Wat Phra That, o templo da montanha de Chiang Mai, fica aquele cheiro de ônibus lotado no ar. Principalmente se pensarmos que boa parte das pessoas que opinam são ex-turistas ou locais que têm, mesmo que indiretamente, interesses financeiros (leia-se comissão pela venda) envolvidos.
Existem dois casos em que damos o braço a torcer e nos rendemos à convivência com os milhares de grupos animados, uniformizados com um chapéu de palha ou um lenço colorido: os que sabemos que é muito imperdível mesmo e os que estamos tendenciosos a abrir mão, mas ficamos com medo de nos arrependermos. O templo da montanha de Chiang Mai entrou no primeiro caso, por duas razões especiais: lemos alguns blogs de expatriados que vivem na cidade, que também recomendavam a visita, apesar da superlotação, e recebemos uma dica aparentemente quente sobre como minimizar – evitar jamais – o tumulto: chegar tarde.

MISSÃO POR UM TEMPLO MAIS VAZIO

Quem nos deu a dica foi o June, responsável pela agência de viagem do hotel onde estávamos hospedados. E acreditamos porque tudo o que ele nos recomendou foi, de fato, legal e (pelo menos aparentemente) genuíno. Além disso, a explicação foi bastante plausível – como o Wat Phra That fica afastado da cidade (não é à toa que é conhecido como templo da montanha), muita gente o visita como parte de um passeio, que tem hora para acabar; enquanto isso, o pessoal que vai na raça, como pretendíamos fazer, costuma escolher o primeiro horário da manhã, que é a estratégia clássica de quem quer fugir das multidões. Fazia sentido e se tornou uma proposta ainda mais interessante quando ele nos contou outros dois benefícios de chegar depois das 16h e esperar até o anoitecer: ver a pagoda* central acesa, que pelas fotos parecia uma lindeza, e assistir à cerimônia dos monges que acontece diariamente a partir das 17h.
templo da montanha chiang mai

Valeu a pena ver p templo aceso | Foto: Manu Pontua

Nosso plano inicial era, de fato, chegar cedo, que é sempre uma opção mais segura, mas decidimos confiar no plano que nosso amigo apresentou com tanta segurança, só não tivemos coragem o suficiente para chegar tão tarde. Saímos do hotel às 14h, especialmente porque queríamos pagar o mínimo possível no transporte, o que pode levar tempo. Nossa meta era de 80 baths (pouco mais de R$ 8) por pessoa, o que só é possível com um tuk-tuk coletivo, e conseguimos fechar em 100 por cabeça para um particular, depois de esperarmos algum tempo por mais passageiros no ponto, ninguém aparecer e  decidirmos – tanto nós, quanto o motorista – ceder um pouco para chegarmos a um acordo bom para todo mundo.
Lá pelas 15h, estávamos na praça ao pé do monte Doi Suthep, onde começa a escadaria de 300 degraus que leva ao Wat Phra That (templo da montanha). A visão foi, para dizer o mínimo, frustrante: uma quantidade absurda de gente subindo (e/ou parada no meio do caminho para uma selfie, ou uma série delas, com o templo atrás). Nem precisa falar que bateu aquele arrependimento precoce por ter chegado naquele horário, né? Mas, como diz o ditado popular, que não é recomendado para um texto sobre um lugar religioso (portanto, não usem): “tá no inferno, abraça o capeta”. Bora subir.
Quando chegamos ao topo, a situação não melhorou, afinal o fluxo de gente era para cima, não para baixo. Ou seja, estava todo mundo lá, competindo por espaço e olha que nem vou mencionar a apresentação de dança infantil no melhor estilo “pega-turista” e os fotógrafos profissionais aos berros para tirar as pessoas do caminho para que os retratos de seus clientes saíssem sem intrusos (ainda se usa o termo Robert?), coisa que nem o Tom Cruise conseguiria arranjar**. Mas a boa notícia é que o June, do alto de sua sabedoria e do seu conhecimento sobre a cidade, estava certo: às 16h (horário em que ele sugeriu que chegássemos), quase como se um cuco tivesse soado, iniciou-se um êxodo e a situação só melhorou daí em diante. Não sei se foi sorte, acaso do destino ou coisa do tipo, mas foi dez.

O QUE RECOMENDO PARA VOCÊ NO TEMPLO DA MONTANHA DE CHIANG MAI

O Wat Phra That (templo da montanha) é dividido em duas estruturas circulares, uma dentro da outra. Começamos pela externa, caminhando para o lado esquerdo, até chegar ao mesmo ponto. Logo no início, demos de cara com uma representação bem imponente do elefante branco que chegou até ali com o objeto sagrado nas costas, morreu e deu origem ao templo – boatos que seus restos mortais estão enterrados ali embaixo, mas jamais saberemos se é verdade, portanto gosto de acreditar que sim. Acho mais impactante para a história.
templo da montanha chiang mai

Será que o elefante tá enterrado aí? | Foto: Manu Pontual

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Budismo e hinduísmo convivendo em harmonia | Foto: Manu Pontual

Passamos por pequenos templos, alguns sinos cenograficamente dispostos em fileira e então encontramos uma estátua do Ganesha, que para quem não sabe é uma representação hindu, em frente a três imagens de Buda. Em um primeiro momento, achamos apenas curioso, mas depois fomos em busca de explicações e recebemos o seguinte: durante o reinado de Lanna, na época da fundação de Chiang Mai, para lá do século X, ainda havia, na região, um legado do Hinduísmo, que é uma religião anterior ao Budismo. Portanto, ao longo das construções dos templos budistas por ali, algumas imagens foram incluídas para que os fiéis não convertidos pudessem reverenciar seus deuses. Viva a tolerância. Viva o respeito. Viva a harmonia.

Mais para frente, já quase no fim da volta pela parte externa, chegamos a mais um atrativo que, dentre todos os templos de Chiang Mai, só o templo da montanha tem: uma vista panorâmica a cidade. O cume do monte Doi Suthep fica a mais de 1.000 metros de altitude, o que coloca no campo de visão a cidade, a vegetação abundante ao seu redor e as cadeias montanhosas que crescem a partir dali. Bem bonito.

 

templo da montanha chiang mai

Vista panorâmica de dia | Foto: Rapha Rotta

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E a vista de noite | Foto: Manu Pontual

Já na parte interna, presenciamos algumas das coisas que, na minha opinião, fizeram valer o dia e a visita. Deixando de lado a beleza, que é intensamente reluzente, principalmente pela presença da pagoda que desponta em direção ao céu, cercada por incontáveis imagens do Buda e oferendas, deixa eu te contar sobre os acontecimentos que você pode vivenciar por ali.
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Bonito, né? | Foto: Rapha Rotta

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Budas e mais budas na parte interna | Foto: Rapha Rotta

Descobrir a posição do Buda que tem a ver com você

Você sabia que, dependendo do dia da semana em que você nasceu, há uma posição do Buda correspondente que, inclusive, fala um pouco sobre a sua personalidade? Lá no templo da montanha de Chiang Mai, existe uma bonita composição com todas as imagens das posições dispostas sobre água e velas, onde os fiéis deixam oferendas de acordo com o seu dia da semana em específico.
O meu é segunda-feira, cujo Buda é o Pacificador, e o da Manu é domingo, que corresponde ao Símbolo da Razão. Se quiser, clique aqui para descobrir o dia da semana em que você nasceu e dá uma olhada nas imagens abaixo para ler mais sobre elas, inclusive com algumas curiosidade como cor e dia da sorte.

Receber uma benção de um monge budista

templo da montanha chiang mai

Olha lá o monge responsável pela benção | Foto: Manu Pontual

Independentemente de religião, crença e fé, acredito fortemente que proteção e boas energias nunca é demais. Por isso, fiquei feliz em entrar no templo que fica no extremo oposto da porta de acesso à área interna, onde recebemos a benção de um monge budista, depois de uma mini-meditação.
Saímos de lá com uma pulseira cada um, que ele colocou no meu braço, mas não no da Manu, já que monges não podem encostar em mulheres, e ficamos ainda mais felizes por percebermos que ele gostou da gente. Não sei explicar como sabemos, mas sentimos, especialmente na sinceridade do sorriso com que eles nos recebeu.

Assistir à cerimônia dos monges

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No começo, monges e noviços em oração | Foto: Manu Pontual

Para fechar o dia, a parte mais especial. Todos os dias, em todos os templos budistas, há uma celebração dos monges que é marcada por um coro em que eles relembram os ensinamentos do Buda. Lá no Wat Phra That, o templo da montanha de Chiang Mao, começa por volta das 17h, no interior do templo mais próximo da entrada da parte interna. Mas a melhor parte vem depois.
Já estava escuro, a pagoda central estava acesa e mais brilhante do que nunca, e os monges saíram do templo onde estavam, perfilados, para a segunda parte da cerimônia, em que dão três voltas na estrutura central, entoando o canto a plenos pulmões. Foi arrepiante. A essa altura, o templo da montanha já estava vazio, então fiquei sentado no chão, sem ninguém ao meu redor (a Manu estava em algum outro lugar, provavelmente fazendo o mesmo), assistindo à fila passar, os mais velhos na frente e as crianças no final. Não tenho uma religião, sempre repito isso, mas fui arrebatado por um sentimento de paz.
templo da montanha chiang mai

Fim das voltas à pagoda | Foto: Manu Pontual

Do lado de fora da pagoda, os fiéis acompanham o circuito e o coro. No meio disso tudo, percebi um grupo de pessoas ocidentais totalmente de branco, que pareciam estar participando de um retiro (que, depois, descobrimos ser daqueles em que é preciso ficar em silêncio durante o tempo todo). Na hora, ainda sem ter certeza se era isso mesmo, fiquei refletindo se um dia eu também participaria de um. Há pouco tempo atrás, minhas resposta seria, certamente, que não. Mas dessa vez, saí dali com um “quem sabe um dia”.
(*) Um tipo de torre com muitas beiradas, também chamado de Stupa (Wikipedia).
(**) Se você está se perguntando o que o Tom Cruise tem a ver com a história, não captou a piada infame sobre o filme Missão Impossível.

O que achou? Conta aqui pra gente :)

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Sobre o autor

Rapha Rotta

Sócio-fundador da Plot, se apaixonou por viajar quando mochilou pela Europa e, desde então, não parou mais: depois de alguns lugares na América do Sul e outros da América Latina, hoje vive no sudeste asiático, onde tenta comprovar a teoria de que é possível, sim, "viver de viajar".

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