Tempo

1
Sobre o tempo

Antes de embarcar | Foto: arquivo pessoal

O que descrevo hoje não exigiu um trem para chegar. Ou ônibus, carro, avião, patinete ou bicicleta.

Reflito sobre aquele que conquista a todos. Do bilionário no Vale do Silício fundador do aplicativo de enviar fotos auto-deletáveis de peitinhos ao puxador de carroça levando sucata na sombra do monotrilho inacabado na Águas Espraiadas.

Falo dele, o tempo.

Sobre o tempo

Relógio um tanto quanto simbólico em Sydney | Foto: Fábio Lattes

Faz um ano que saí do Brasil. Em busca de um sonho que alimentava há anos: morar fora. Já tinha morado antes com minha família, quando menino. E vinte anos depois, fui fazer o mesmo com a mulher que um dia terei a minha.

“Life begins at the end of your comfort zone”. Quantas comerciais da Nike e quadros do Canal Off já não vimos essa frase cutucar nossa inércia de estar entre o computador do trabalho e o sofá de casa?
Mas antes de cravar tal afirmação, é preciso reconhecer que a jurisdição da “zona de conforto” varia para cada pessoa. Pode ser tentar uma carreira diferente, ou somente outra cidade, outro relacionamento. Em essência, é ter consciência de estar partindo para algo que te dê medo, mas você sempre quis. E ainda mais confiante na incrível satisfação caso dê certo.

Para mim, era morar fora. Não importava muito onde. Via filmes, ouvia relatos de amigos, visitava outros países e cavava memórias da minha própria experiência vivendo em outra cultura, com outros amigos e outra rotina.

E tudo isso fervia em mim um senso de urgência para fazer o mesmo. Algo que dizia que se eu não fizesse agora, faria quando? Quando o cargo aumentasse? Quando o conforto da minha aprazível rotina me fagocitasse?

E assim, partimos. E para minha infinita sorte, não fui sozinho. Fui estourando o limite de bagagem com o apoio incondicional da minha família e amigos.

E com ela, que o perrengue (esse subproduto do tempo) provou de uma vez por todas ser o amor da minha vida.

Os livros e filmes sobre pessoas que passaram por momentos difíceis não fazem justiça aos companheiros de aventura. A importância deles é imensurável. Como apoio, como ouvintes, como incentivo para seguir tentando. Mas principalmente, como estímulo para poder dividir o momento quando dar certo.

Vá por mim. Quer saber se ama alguém? Receba uma ótima notícia e anote imediatamente o nome da primeira pessoa que você queira contar. É ela.

Declarações de amor à parte, o fato é que me sinto um tanto molenga (o termo mais correto seria “leite com pêra”) de mencionar “perrengue”, sendo que o tempo todo tive um ótimo teto sob minha cabeça, comida no prato e quase todo dia uma vista para a Opera House. Mas para alguém incrivelmente sortudo como eu, o pior perrengue é aquele que passa frio dentro da sua cabeça. “Por que fui sair do Brasil? Tinha tudo lá…”. “Acho que devia ter me preparado melhor.”. “O dinheiro guardado vai acabar.”. “Vou ter que voltar só com um fracasso na mala”. “O que vão pensar?”

Sobre o tempo

Sydney no horizonte | Foto: Fábio Lattes

Mas a ansiedade de procurar um emprego e as constantes recusas e possibilidades vagas de justamente “mês que vem” ter uma vaga lentamente me corroíam. Buscava o patrocinador ideal da experiência que tanto queria, que agregasse para minha carreira e portanto para meu eventual retorno ao Brasil.

Mal sabia que a própria árdua procura era talvez a parte mais valiosa da experiência.

E mesmo com tudo isso tremendo de frio e batendo queixo no meu cérebro, ele, o tempo, apresentava seus outros subprodutos. Ganhei a amizade de pessoas incríveis. E a calma para manter acesa a chama que derrete perrengues: o otimismo.

Sobre o tempo

Tem sempre um novo trem | Foto: Fábio Lattes

Um ano depois, a procura me trouxe aqui. Em um lugar totalmente fora dos planos. Cheio de oportunidades, histórias incríveis e o mais importante: ainda com tempo.

O que achou? Conta aqui pra gente :)

Compartilhe:

Sobre o autor

Fábio Lattes

Um franco-campineiro se aventurando nesse mundão em cima de um teclado. Autor da coluna Ciao!, onde conta sobre suas experiências em Turim, na Itália.

1 Comentário

  1. Pingback: 6 dicas para quem vai morar fora