Uma reflexão sobre ser privilegiado, nos vilarejos flutuantes do Camboja

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Boa parte das pessoas que vão para Siem Reap, no Camboja, têm dois objetivos: visitar os milhares de templos da região e encher a cara na Pub Street, uma rua cujo nome já diz tudo – é cheia de bares. Nós fizemos o primeiro, que foi incrível, não nos dedicamos ao segundo, porque a diversão oferecida por ali não é do tipo que gostamos, e queríamos mais que isso. Queríamos conhecer algo que não fosse puramente turístico. Algo que mostrasse a verdade do país onde tínhamos acabado de chegar. E foi nessa busca que descobrimos os vilarejos flutuantes.

vilarejos flutuantes do camboja

Vamos falar de realidade? | Foto: Manu Pontual

Eu não sei se você sabe, mas o Camboja passou por uma das maiores tragédias da história da humanidade: um genocídio que dizimou mais de 30% da população (três de oito milhões de pessoas), assinados pelo Khmer Rouge, o regime comunista que tomou o país de assalto, no fim da década de 70. E não estou falando sobre o ano de número 70, nem de 1870. Estou falando de 40 anos atrás, quando muitas das pessoas que você conhece já estavam vivas – e, se vivessem no país, possivelmente teriam entrado na conta dos óbitos.

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Antes e depois da tragédia | Foto: Rapha Rotta

Vamos contar mais sobre tudo isso quando falarmos da nossa experiência em Phnom Penh, a capital do Camboja, um dos lugares mais afetados por essa tragédia, onde visitamos um antigo campo de extermínio e uma escola que foi convertida em prisão para torturas, hoje transformada em museu. O que você precisa saber, por enquanto, é que esses tristes acontecimentos geraram consequências que, ainda hoje, têm uma influência enorme na vida das pessoas. A principal delas é a pobreza. Ou melhor, a miséria.

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Vida simples | Foto: Manu Pontual

Os vilarejos flutuantes são complexos habitacionais construídos sobre palafitas em regiões ribeirinhas. O que visitamos, especificamente, chama-se Kampong Phluk e abriga cerca de 700 pessoas, das quais boa parte são crianças, que vivem em uma situação muito, muito precária. Com certeza, a mais precária que eu, menino privilegiado da cidade grande, já vi. Provavelmente uma das mais precárias que verei nas minhas andanças pelo mundo.

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Brincando no quintal | Foto: Rapha Rotta

Tanto o Kampong Phluk, como os demais vilarejos flutuantes, vivem em completo isolamento: é preciso pegar um barco para chegar até lá, coisa que a energia elétrica e o saneamento básico não podem fazer. Isso sem contar tantas outras coisas que certamente faltam, mas que eu não tive a sensibilidade de perceber. Toda a subsistência é baseada no rio. O mesmo rio que recebe dejetos humanos, lixo, óleo dos barcos e sabe-se lá mais o quê. Não precisa ser um biólogo para concluir que bem isso não deve fazer, né?

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Dia a dia | Foto: Manu Pontual

As crianças que encontramos, e com quem passamos um tempo brincando, estavam sujas de um jeito que eu não conseguiria imaginar, se alguém tentasse me explicar. Parte delas sem roupa, correndo debaixo de um sol de rachar, rolando pelo chão coberto de lixo, nadando no rio. Os mais velhos cuidando dos mais novos. E os ainda mais velhos já com a mão na massa, ajudando os adultos no que podem.

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Brincando de ser adulto? | Foto: Rapha Rotta

Existe uma escola, literalmente caindo aos pedaços, que não tem espaço para todos, portanto alguns se deslocam diariamente para outros lugares, enquanto os outros são organizados turnos de estudo, que no fim do ano passam longe dos dias letivos exigidos pelo MEC no Brasil. Mas, mesmo assim, elas aprendem a falar inglês. Em parte graças a alguma das inúmeras instituições de apoio, mas também – e talvez principalmente – por incentivo dos pais, que veem nisso uma oportunidade de uma vida melhor.

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O caminho da escola | Foto: Manu Pontual

Nessa altura do meu relato, talvez você pense que as pessoas que encontramos por ali são infelizes. Mas é aí que você se engana. Tenho certeza que nenhuma delas afirmaria ter a vida que sonhou. Não tenho dúvidas de que há uma boa dose de conformismo envolvida. Mas o que vi foram seres humanos de uma força e resiliência impressionante, que são capazes de encarar os problemas de frente e com um sorriso no rosto. Gente do bem, aberta a receber um forasteiro como eu de braços abertos. Sim, tive que pagar para estar ali e esse dinheiro se transformará em renda para a comunidade. Mas quantas vezes você não pagou para visitar um lugar e não foi bem recebido pelas pessoas? Eu, muitas.

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Recepção | Foto: Rapha Rotta

Esse passeio, que durou metade do dia, me fez refletir muito. Em primeiro lugar, e me pareceu muito natural, pensei em como sou privilegiado – coisa que sempre soube, mas cuja clareza só aumenta a cada vez que me vejo diante de uma situação de probreza extrema e explícita. Mas depois, pensei melhor e cheguei a uma questão: será mesmo que sou eu o privilegiado? Eu que, se forçado a viver nas condições que presenciei, provavelmente perderia o chão. Ou será que privilegiados são eles, que descobriram a fórmula para extrair forças de onde, em um primeiro olhar, só existe desgraça, desespero e tristeza?

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Vai uma dose de alegria? | Foto: Rapha Rotta

Empaquei nesse ponto, sem conseguir achar uma resposta. Por ora, acredito que ambos somos privilegiados, de jeitos totalmente diferentes. Mas tendo a acreditar que as minhas bases estão longe de serem as mais sólidas.

PORQUE (OU, PARA QUEM) RECOMENDO A VISITA A UM DOS VILAREJOS FLUTUANTES DO CAMBOJA

Tenho certeza que muita gente que lê um relato desse tipo se pega pensando no porquê de viajar, cruzar o planeta, para conhecer pobreza. A pergunta, de fato, nunca aconteceu, mas conheço as evidências de que o questionamento existe: enquanto o nascer do sol, no Angkor Wat, às 5h da madrugada (que para mim é muito, muito cedo) estava apinhado de gente se empurrando para tirar a melhor foto do espelho d’água, vi pouquíssimos turistas visitando o vilarejo flutuante; enquanto uma foto de uma linda paisagem bomba nas redes, postar uma criança pobre, por mais “bonitinha” que ela seja, não dá ibope – assim como um texto como esse dificilmente dará. Viagem é, para muita gente, sinônimo de uma vida perfeita.

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Qual a sua viagem? | Foto: Manu Pontual

Por outro lado, faço – e continuarei fazendo – questão de viver experiências como essa. Eu viajo para aprender. Sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre realidades diferentes da minha. E tudo isso me faz aprender muito sobre mim, sobre como posso me tornar uma pessoas melhor. Conheço poucas pessoas que apreciam tanto uma praia de águas transparentes como eu, mas não aprendo muita coisa com elas ou com as tartarugas que encontro fazendo snorkel por aí.

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Vai encarar? | Foto: Rapha Rotta

Se você enxerga a situação da mesma forma que eu, recomendo que vá. Vai ser um tapa na sua cara, daqueles bem dados, mas que vai te ensinar um monte de coisas importantes. Agora, se você acredita que férias e/ou viagens estão aí para serem curtidas, sem tristeza e sem problemas, não te julgo, mas também não acho que você vá gostar de conhecer os vilarejos flutuantes – fique com os templos, o Angkor Wat e acompanha aqui nossos posts, que em breve vamos contar das praias surpreendentes que encontramos no Camboja.

PARA QUEM QUER IR, AÍ VÃO ALGUMAS DICAS PRÁTICAS

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Você vem? | Foto: Manu Pontual

  • Você terá que fechar um passeio em Siem Reap, que provavelmente contemplará o transporte e o ingresso para o vilarejo que escolhido. Não sei dizer exatamente quanto paguei por essa atividade, pois fechei um pacote que contemplava também a visita ao complexo Angkor na parte da tarde (saiu por U$ 23 por pessoa).
  • Tome cuidado na escolha do vilarejo que você vai visitar. Não posso afirmar com certeza, mas pelos relatos que li, o Chong Kneas é mais um show para turistas do que uma experiência real. O Kompong Khleang tem a fama de ser o mais “verdadeiro”, enquanto o que visitamos (escolhido por conta da distância e do tempo que tínhamos) fica no meio termo.
  • O pacote de visita ao Kampong Phluk contempla uma volta de barco pelos arredores, uma visita ao lago Tonle Sap (que não tem nada demais e parece o mar) e uma parada em terra, quando o rio está baixo. Além disso, você poderá pagar a parte (U$ 5 por pessoa) por um passeio de canoa, pilotada por uma mulher da comunidade, em meio a uma floresta alagada. O visual impressiona e o dinheiro vai fazer diferença para a vida dela, portanto acho que vale o investimento.
  • Ao longo do passeio, você será abordado por pessoas tentando vender cadernos para que você entregue às crianças da comunidade. É a cara do golpe turístico, mas decidimos apostar e não podíamos ter feito escolha melhor: o brilho nos olhos de cada um que recebeu um caderno das nossas mão compensa qualquer dólar investido nisso.
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Esperança | Foto: Rapha Rotta

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Sobre o autor

Rapha Rotta

Sócio-fundador da Plot, se apaixonou por viajar quando mochilou pela Europa e, desde então, não parou mais: depois de alguns lugares na América do Sul e outros da América Latina, hoje vive no sudeste asiático, onde tenta comprovar a teoria de que é possível, sim, "viver de viajar".