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O que aprendi ao viajar para países muçulmanos

De tudo o que levo comigo para casa, depois de uma viagem, defino o conhecimento como item mais valioso. Sempre achei que, uma vez na estrada, longe do meu “lugar-comum”, sujeito ao imprevisível e ao diferente, tenho a oportunidade de aprender muito mais do que em uma rotina “convencional”. Só depende de mim aproveitar.

Ao embarcar para o sudeste asiático, eu sabia que a religião seria uma das principais fontes de conhecimento. E mesmo como pessoa não-religiosa que sou, vim disposto a beber dela, não por achar que aqui poderia “me encontrar”, mas por plena consciência de que só assim eu poderia, de fato, entender a cultura, as tradições, o comportamento humano. Ou, em outras palavras: sem estar aberto para a religião, eu não conseguiria chegar mais fundo, tão grande sua influência nos países da região.

Durante a viagem, as religiões com que mais tivemos contato são o budismo e o islã. E é sobre a segunda que pretendo, com esse texto, compartilhar um pouco daquilo que aprendi. Para muitas pessoas, principalmente se levarmos em consideração o que – e como – a mídia tem a dizer, viajar para países muçulmanos com o propósito de “estar aberto” pode parecer uma ideia questionável. Mas, além da certeza que tenho de que não se pode confiar em tudo o que se vê e lê, acredito piamente que esse seria o único caminho para fazer valer a experiência.

Daqui para frente, nos três meses que ainda nos restam, não passaremos mais por países cuja população é, majoritariamente, muçulmana. Durante os (quase) oito que já foram, a Malásia e a Indonésia foram os únicos em que nos deparamos com essa situação: maioria islâmica. Ao todo, passamos cerca de três meses entre um e outro. E a experiência, tão diferente em cada um deles, já deixa bem clara a primeira lição, que não é nova, mas que ganhou força dentro de mim: não se pode, jamais, generalizar.

PRECISAMOS FALAR SOBRE RADICALISMO

Peça a uma pessoa cuja única fonte de informações é a mídia para definir (ou estereotipar) com uma única palavra os islâmicos. Não ficaria surpreso se a palavra “radical” encabeçasse a lista de adjetivos utilizados, afinal é essa a imagem que se vende. Há meses atrás, talvez fizesse o mesmo. Mas hoje, depois da experiência que vivi ao viajar para países muçulmanos, tenho a opinião de que isso não passa de generalização influenciada e pouco embasada.

viajar para países muçulmanos
Visita à mesquita em Kuala Lumpur, na Malásia | Foto: Rapha Rotta

Minha nova visão sobre o assunto é de que o radicalismo está associado ao ambiente, ao contexto. Sentimos isso na pele, em nossa passagem pela Malásia, onde as portas – assim como as pessoas – estavam fechadas para a nossa curiosidade turística. Ali, fomos alvo de olhares feios, como se fôssemos invasores, ou, no caso da Manu, de olhares desejosos (para usar uma palavra engraçada e te ajudar a não sentir tanto nojo pela situação). Para visitar a área externa de uma mesquita onde não havia atividades em andamento, a Manu teve de se cobrir, literalmente, dos pés à cabeça com uma manta fornecida pela mesquita. Em alguns lugares simplesmente não fomos bem-vindos ou bem recebidos, assim como não encontramos pessoas locais dispostas a conversar, contar e dividir.

Isso acontecia em todos os lugares? Não. Todas as pessoas agiam da mesma forma? Também não. Mas é inegável que o clima é menos favorável para estrangeiros. Imaginamos que valesse em especial para os ocidentais, mas em uma conversa com o gerente do hotel onde ficamos em Kuala Lumpur, que é do Sri Lanka, um país majoritariamente budista, entendemos que não: ele, que vive na cidade há anos, fala a língua local e é casado com uma malaia (que faz parte da minoria não-muçulmana), contou que passa por coisas muito parecidas.

Foi um começo frustrante, que deixou a sensação de que talvez a história de associar o islã ao radicalismo fizesse sentido. Mas aí veio a Indonésia não só para virar de cabeça para baixo a nossa percepção, como para ressignificar a experiência de viajar para países muçulmanos.

PRECISAMOS FALAR SOBRE TOLERÂNCIA

Diferente da Malásia, na Indonésia nos deparamos com um cenário em que o adjetivo que melhor se aplica dificilmente seria associado por nós, desinformados, ao islã: tolerância. E o melhor exemplo disso é físico, pois a maior mesquita de Jakarta, capital do país, está de frente para a maior igreja católica da cidade. E tudo certo, sem crise – esse é, inclusive, motivo de orgulho de quem vive ali.

Aliás, sabemos disso porque fomos visitar a mesquita, às vésperas do fim do Ramadã, quando as orações caminhavam para o ápice de sua atividade, mas mesmo assim fomos muito bem-recebidos, não só pelo simpático senhor que nos levou para conhecer as instalações (internas, inclusive), quanto pelos fiéis que poderiam se sentir invadidos ou incomodados, mas na verdade disseram estar lisonjeados. Tudo isso com nossas próprias roupas, que cobriam nossos ombros e joelhos, mas nada além disso.

Foi também na Indonésia onde aprendemos o que é o Ramadã: um período anual, de 30 a 40 dias, dependendo do ano, que antecedem ao Idul Fitri, data em que é celebrada a revelação do Alcorão – o livro sagrado da religião – para o mundo. Durante esse tempo, os fiéis praticam rituais que têm como objetivo, em uma explicação para leigos que somos, somar créditos para a próxima vida. Dentre eles, o mais comentado é o jejum que vai do nascer ao pôr-do-sol, mas também há a proibição de relações sexuais e/ou de pensamentos ruins, assim como o incentivo a praticar o bem para outras pessoas.

Nas nossas passagens por Bandung e Yogyakarta, duas cidades interioranas, fomos bem-vindos nas celebrações ligadas ao Ramadã. Um dia, passamos o fim de tarde em um parque onde todos se reúnem para aguardar o fim do jejum e depois partilhar um piquenique (dá uma olhada aqui embaixo, o post que fizemos sobre esse dia no Instagram). Nessa ocasião, conhecemos um jovem muçulmano, que nos ofereceu um pouco de sua comida (mesmo depois um dia inteiro em jejum!), e aceitou um convite para jantar (ideia genial do Fê e da Gabi, do Think Twice Brasil, com quem estávamos) e nos ensinou muito sobre a religião. Depois, na noite de comemoração do Idul Fitri, pudemos nos misturar à multidão nas ruas para assistir aos desfiles. Tudo na maior paz, no maior respeito e felicidade.

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A photo posted by Mundo Plot (@mundoplot) on

[/column] [/columns] Nossa percepção mudou e ficou claro, com o perdão da repetitividade, que generalizar não faz sentido. O radicalismo existe, sim, mas está no contexto e as pessoas são influenciadas por ele. Pelo menos é assim que enxergo, baseado nas experiências que vivi ao viajar para países muçulmanos. Sem dúvida, há lugares onde a situação é mais intensa, como é impossível não pensar sobre alguns países do Oriente Médio, mas tenho certeza que, mesmo ali, existem os dois lados da moeda. Dá uma olhada no vídeo que postamos no Snapchat no dia do Idul Fitri. Ainda não segue a gente? Vai lá: mundoplot! :) [columns] [column size=”2/3″]

Hoje foi o fim do Ramadã, o mês sagrado islâmico em que os religiosos fazem jejum do nascer ao por do sol (não pode nem água!) e são estimulados a purificar-se por meio do autodomínio, da generosidade, fraternidade, caridade. O fim do Ramadã, chamado de Idul Fitri, é para eles como se fosse o natal – um feriado longo de confraternização e festa, com muita música, fogos e, claro, sorrisos! Hoje nas ruas presenciamos um pouco dessa festa, e contamos lá no Snapchat como foi – olha aqui o resultado :) Tem Snapchat? Segue a gente lá: mundoplot

Posted by Plot on Quinta, 16 de julho de 2015

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NÃO PRECISAMOS FALAR SOBRE FÉ E CRENÇAS

É muito delicado questionar fé e/ou crenças. Elas estão enraizadas em um passado remoto e foram construídas, depois disseminadas, por pessoas que já não estão mais aqui para explicar os porquês de cada coisa. E, ao meu ver, é por isso que o ato de questionar, em qualquer religião, é algo visto maus olhos. Católicos não gostam de ouvir a teoria de que Jesus e Madalena foram amantes. Evangélicos ficam furiosos com a simples menção de uma união homoafetiva. Então, será que os únicos radicais do mundo são os muçulmanos? Ou será que suas crenças são apenas distantes da sua própria realidade e por isso você, ao invés de tentar entendê-los, sente-se no direito de julgá-los?

Deixa eu te contar uma história rápida. Logo que chegamos em Bangkok, no terceiro dia de viagem, saímos para andar, meio sem rumo, pelas ruas. No meio do caminho, topamos – o que não é lá muito surpreendente – com um templo budista. Entramos para conhecer e, no calor da emoção de quem vê uma imagem de Buda num templo tailandês pela primeira vez, esqueci de tirar o chinelo (pra quem não sabe, é considerado falta de respeito). Eis que um cidadão viu e me repreendeu. Pedi desculpas, corri para arremessar meu calçado para fora dali, mas ele não se contentou e me perguntou: “você ouviu falar do que aconteceu no Charlie Hebdo?”. Não entendi para onde caminhávamos com a conversa, mas respondi que sim. E aí ele emendou: “falta de respeito como essa gera ações desse tipo”. Por essa eu não esperava. Aposto que você também não.

DICAS PARA QUEM VAI VIAJAR PARA PAÍSES MUÇULMANOS

Aí vão algumas dicas importantes para quem vai viajar para países muçulmanos, seja para que você tenha uma viagem mais tranquila e esteja mais preparado com o que vai encontrar, ou apenas para garantir o seu respeito à cultura alheia. Importante ressaltar que nossa experiência se resume ao sudeste asiático, então se o seu destino for em outro continente, vale uma pesquisa complementar para checar se tem algo diferente que você precisa saber.

Atenção às roupas

Vai visitar uma mesquita? Ombro e joelhos cobertos. E o mesmo vale para vilarejos mais remotos, onde os costumes são levados ainda mais à risca do que em cidades grandes que, de certa forma, fazem vista grossa para o turismo.

Para as mulheres que quiserem evitar muitos olhares, a saída é adotar a regra em período integral durante a passagem pelo país muçulmano. Um outro ponto importante aqui no sudeste asiático é sobre as cidades litorâneas, onde não é legal ficar desfilando pelas ruas de biquini. Saiu da praia, coloca a roupa, que provavelmente vai ser curta, mas já melhor do que (quase) nada.

Não fume ou beba álcool perto de mesquitas

É proibido fumar e beber álcool nas mesquitas, mas em suas imediações (e principalmente na frente) também não é visto com bons olhos, portanto vale evitar, camuflar a cerveja, apagar o cigarro ou atravessar a rua e seguir a vida – experiência própria de quem foi repreendido (dessa vez numa boa, sem ameaças mais profundas).

Nada de comportamentos indecentes

Ficar se abraçando e beijando em público é mais um comportamento que não é visto com bons olhos, portanto controle-se. No metrôs e em alguns outros lugares públicos é, inclusive, proibido e passível de multa, então controle-se mesmo. Só para você ter uma ideia de como esse assunto, que pode parecer piada, é sério: alguns jovens ingleses que ficaram nus em uma montanha da Malásia foram acusados de provocar a ira da natureza com sua sem vergonhice, causando um terremoto. Acha que é brincadeira? Eles foram presos e foi necessária intervenção diplomática para que fossem liberados.

Prepare-se para os banheiros

Você já deve ter ouvido falar dos banheiros no chão, certo? Pois é. Ao meu ver, dois principais desafios: (1) o cheiro que se acumula e fica forte, já que normalmente esses banheiros usam o esquema do baldinho, que tem bem menos pressão do que uma descarga (pra quem não sabe, elas quase não existem nesse formato); (2) o aguaceiro que sempre é, tanto pela mesma questão do baldinho, quanto porque, descobrimos, as mulheres literalmente se lavam, com o chuveirinho que está sempre disponível, depois de usar o banheiro, para eliminar impurezas – por isso, inclusive, é raro ter papel higiênico à disposição, então uma boa dica é levar o seu próprio.

Releve os olhares

Se você é mulher e não está totalmente coberta, pode contar com os olhares nas ruas. Se você é homem e está acompanhando uma mulher que não está totalmente coberta, ela será olhada. E o que ambos devem fazer: relevar, abstrair, fingir que nada aconteceu.

Infelizmente alguns (e não são todos) homens muçulmanos acreditam que, ao sair descoberta, a mulher está se colocando à disposição dos olhares alheios, portanto eles têm esse direito. Sujo e triste, mas infelizmente é assim que acontece – e não vale a pena reagir.

Entenda os limites

Se em algum momento você tiver a oportunidade de conversar com um muçulmano, cuidado para não exagerar na curiosidade. Antes de sair perguntando tudo o que vier à cabeça, tente entender quais os limites que aquela pessoa impõe a você. Eventualmente, você poderá falar de assuntos mais polêmicos e fazer perguntas capciosas. Em outros casos, porém, terá que se ater ao trivial, para que a situação não descambe em algo desconfortável para um dos dois lados.

Por último, mas não menos importante: PRATIQUE O RESPEITO, SEMPRE.

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Grupo de muçulmanos que nos abordaram para praticar inglês em Gili! | Foto: Rapha Rotta
Rapha Rotta
Sócio-fundador da Plot, namorado da Manu, libriano indeciso e a cada dia mais asfaltofóbico. É apaixonado pelo mundo desde que consegue se lembrar e não consegue se sentir tranquilo sem saber quando será a próxima viagem.

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