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Turismo consciente: você pratica?

Para todos nós, as férias são o momento de desopilar, relaxar e esquecer das regras do nosso dia a dia. “Nas férias pode tudo!”, nos ensinam desde criança.

Mas não é bem assim. Se você quer aproveitar suas férias para levar tudo menos a sério na sua alimentação, nos exercícios físicos, no uso de creminhos irritantes toda noite, vai fundo! É bom mesmo largar as amarras de vez em quando. Mas quando estamos falando do cuidado com o outro e com o mundo, pelo amor, não relaxe. É preciso entender que todas essas regras precisam ser incorporadas na nossa vida e no nosso ser. Não podem ser encaradas como regras, e sim como cuidado, consideração e respeito com o outro.

Quando você viaja, para qualquer lugar que seja, você está no país de milhões de pessoas. Que elas moram ali, vivem suas vidas normalmente, são mães, pais, estudantes. Que aquele país vai continuar vivendo e enfrentará as consequências do que você fizer por ali. Então, que tal não abusar?

Alguns turistas tendem a relaxar demais e, talvez por ser uma região subdesenvolvida, aqui na Ásia parece que a coisa é pior. Ficamos assustados pela quantidade de vezes que encontramos turistas desrespeitosos. Gente de países considerados muito mais civilizados do que o Brasil, por exemplo, que aparentemente se sentem melhores do que tudo o que está ao seu redor e jogam lixo nas ruas e praias, tratam os locais mal (sério, ouvimos um adolescente inglês chamar um motorista de macaco. MACACO. Na cara dele, conversando com ele. Duvido que ele faça algo minimamente parecido quando em seu país. Absolutamente revoltante), desrespeitam outros turistas, gastam energia demais, água demais, demandam, demandam, demandam. O mundo é nosso, de todos nós, e só vai continuar sendo lindo e interessante se a gente cuidar dele. As pessoas são pessoas, como nós, e merecem todo nosso respeito e consideração. Veja aqui embaixo algumas coisinhas que você pode fazer para não passar como um furacão por onde visita.

TENHA RESPEITO

Seja apenas pelas pessoas que estão nas ruas, seja pelas pessoas que te servem o café da manhã, pelos barqueiros, pelo motorista do ônibus, pelo taxista, pelas pessoas na rua: tenha respeito. Elas podem ter condições sociais muito piores do que a sua, talvez elas não saibam falar inglês direito, talvez cuspam no chão, ou sejam ignorantes sobre alguns temas, ou têm uma religião ou cultura que você despreza. Nada disso faz delas pessoas menores, piores, menos dignas do que você. Entenda que ninguém precisa, em seu próprio país, exercendo o próprio trabalho ou apenas passeando, lidar com gente mal educada e desrespeitosa que se acha mais importante apenas porque veio de outro lugar ou porque está de férias. Trate todos bem, retribua os sorrisos. São todos gente como você e merecem ser respeitados como tal.

NÃO INCENTIVE O TURISMO EXPLORADOR, ESPECIALMENTE DE ANIMAIS E SERES HUMANOS

Nós somos bichos curiosos por natureza. Queremos conhecer, entender, tocar, puxar. Temos um senso de maternidade e paternidade que nos faz querer alimentar. E, claro, somos carentes e queremos atenção – a busca pela foto perfeita nas férias é um balde cheio para a falta de consciência.

Brilha os olhos imaginar que podemos nadar com golfinhos, alimentar macacos, ver tubarões baleias de perto, tirar uma foto com araras e leões, andar nas costas de um elefante ou segurar uma cobra. Às vezes até há formas de fazer isso sem atrapalhar a vida dos animais, mas também somos bichos preguiçosos por natureza, então raramente queremos fazer isso em seus habitats naturais. É tão mais prático fechar um tour que em poucas horas te levará a um centro super civilizado em que os animais estarão à sua disposição, com segurança e conforto, e depois te deixará de volta no seu quarto de hotel com ar condicionado e banho quente.

Mas é preciso ter consciência. É preciso entender que uma arara brasileira em exposição em um parque de Cingapura não deve ter uma vida muito boa. Se é difícil pra gente chegar lá de avião, imagina pelo que ela passa! Que um elefante que fica o dia inteiro levando gente nas costas não deve ser lá muito feliz. Que um golfinho que vive numa piscina, por maior e mais parecida com seu habitat natural que seja, não é livre. Que pessoas que têm suas culturas e hábitos explorados por agências de turismo, por serem excêntricos, não têm liberdade e normalmente são reféns de um sistema explorador e agressivo.

Tem muita coisa que dá para fazer de forma consciente. Você pode ver os elefantes, dar banho e brincar com eles fazendo voluntariado em um centro de reabilitação para os animais, que controla a quantidade de visitantes e ensina regras rígidas de conduta perto deles – mas você não pode subir neles, tá? Você pode encontrar comunidades e tribos abertas à visitação independente, que vão te receber e ensinar, eles mesmos, sobre sua cultura e sua vida – mas você precisa dormir lá, abrir mão de confortos e se esforçar para se comunicar direito com eles. Dá para fazer trilhas e expedições em florestas onde você verá macacos, cobras, araras e águias em seu habitat natural – e não poderá pegar neles. Mas para quê você quer tirar foto com uma arara? Recheie seu instagram sem infernizar a vida de outros seres, por favor.

Para saber o que é legal ou não fazer, a regra de ouro é pesquisar. Não aceite por impulso um tour que te oferecerem para dançar em cima de um tubarão baleia enquanto equilibra nas mãos um beija-flor. Ok, claro que esse tour não existe, mas quando falamos de vidas, pesquise antes. A internet é uma ótima fonte de informações e, se estiver na dúvida, não vá.

O zoológico Lujan, na Argentina, é cheio de animais selvagens com os quais você pode brincar e tirar fotos, e é um dos queridinhos dos brasileiros quando vão ao país. Só que, vamos pensar juntos: por que você acha que um leão enjaulado quer brincar com você e ficar quietinho na pose padrão para tirar uma foto pra você postar nas redes sociais? Ele não quer. Muito provavelmente, ele está dopado – e descobri, em uma rápida pesquisa na internete, que é essa a enorme suspeita que paira sobre zoológico, e na qual acredito com afinco. Leões são leões, e não bichinhos de estimação. De qualquer forma, é esquisito, né? Então não vamos incentivar essa atividade, ta bom?

NÃO JOGUE LIXO EM LUGARES INADEQUADOS

Por lugares inadequados, eu estou falando tudo que não é uma lata de lixo: não jogue nas praias, óbvio, nem nas ruas, óbvio também, mas também não deixe papéis em cima da mesa de um restaurante – se ninguém passar para pegar rapidamente, eles vão voar -, nem no banco do táxi, ou do barco, ou do ônibus. Além de não poluir o ambiente e nossa natureza, vale aqui a regra do respeito também: o táxi tem um dono, o ônibus terá outros passageiros. Tenho certeza de que você não gostaria de entrar num ônibus com papeis de bala no assento. Ou que alguém largasse um pacote de salgadinho no banco de trás do seu carro.

Se preciso, tenha uma sacolinha de lixo na sua bolsa ou mochila para quando não encontrar nenhum.

ECONOMIZE RECURSOS

Não ache que, porque você está pagando ou porque está de férias, é tudo bem sair desperdiçando os recursos do destino em que se encontra. Água, energia, comida, papel – tudo é tão valioso nas suas férias quanto em sua casa. Ao sair do hotel, apague as luzes. Não deixe a torneira pingando nem escove os dentes com a torneira ligada. Não exija limpeza do quarto de hotel todos os dias – se você vai passar apenas algumas noites, você provavelmente consegue mantê-lo suficientemente limpo. Muito menos troque toalhas frequentemente.

Todas as regrinhas que você segue (ou deveria seguir) em casa, valem para todos os lugares do mundo. O mundo inteiro passa por um stress causado pelo consumo acelerado, todos sabemos disso, que causa secas, estiagens, tsunamis, aquecimento dos pólos, extinção de espécies de animais, tempestades e um sem-fim de desastres e tragédias. Você pode se sentir só uma pequenina gota no oceano, e pensar que não faz mal um papel de bala ao léu na rua, ou uma trocazinha de toalhas pelo seu conforto. Tenha sempre uma garrafa de água reutilizável para encher novamente – mais cidades do que você imagina oferecem estações de refil ou têm água potável saindo da torneira – é só procurar saber.

Mas somos mais de 7 bilhões de pessoas no planeta e, se cada uma delas achar que suas pequenas atitudes não afetam o mundo, são mais de 7 bilhões de pequenas atitudes unidas que estragam nosso lindo e querido planeta – afinal, foi isso que nos fez chegar até aqui, né?

DISTRIBUA A RENDA

Calma, que eu explico. Especialmente em países menos desenvolvidos, é importante distribuir a renda por onde você passa. O turismo é um mercado de grande lucratividade praticamente no mundo inteiro, e isso significa que ele atrai investimentos. De todos os tipos de empresas e empresários. Não é incomum que a maior parcela do turismo de um local seja controlado por uma ou poucas empresas, frequentemente internacionais – e isso significa que sua passagem por ali não estará ajudando necessariamente o país e seus moradores, já que esse dinheiro pode ir embora rapidinho.

Por isso, é importante estar atento para oportunidades de distribuir a renda, devolvendo um pouquinho do que aquele lugar te proporcionou aos seus moradores. E você pode fazer isso facilmente optando por comprar e contratar serviços de moradores e famílias locais, e não de empresas de turismo. Por exemplo, na hora de comprar um lanchinho ou uma água, que tal entrar num mercadinho pequeno em vez de ir ao 7-Eleven ou alguma outra rede internacional? Ou, quando for fazer um passeio, contratar um motorista em vez de reservar um tour por uma agência de viagens? Ou mesmo na hora de fazer um passeio de barco, ir direto nos pescadores e barqueiros da região e contrata-los para te levar? O mesmo dá para fazer com a hospedagem: em vez de ficar em grandes redes, opte por se hospedar em pousadas controladas por famílias locais. Em todas essas opções, você ainda terá muitas vantagens: provavelmente pagará menos; será mais bem atendido, com um sorriso no rosto e um bom papo; poderá conhecer melhor a cultura e ainda fará novos amigos. Só vantagem!

CONSCIENTIZE OUTROS TURISTAS E TAMBÉM OS MORADORES LOCAIS

Ok, ninguém aqui precisa virar um ecochato nas férias e sair por aí dando sermão em todo mundo. Mas a verdade é que dá para mudar algumas percepções tanto de turistas, quanto de moradores locais – esses, muitas vezes em países mais pobres, têm carência de informação e desperdiçam recursos, jogam lixos nas ruas e nas praias, desrespeitam mulheres e por aí vai. Às vezes é revoltante e, em outras, o pensamento pode chegar a ser “ah, se eles fazem isso no país deles, porque eu vou me preocupar?”. E eu te respondo: você vai se preocupar porque o mundo, como eu falei, é de todos nós. Sua responsabilidade não morre nos limites do território brasileiro. Se encontrar uma brecha, conte para o morador local porque aquilo não é legal – muitas vezes eles não têm a informação e a consciência, que cá entre nós, o mundo e os brasileiros também não tinham há pouco tempo. Quando vir um turista falando de um passeio muito legal em que ele fez algo prejudicial, conte para ele o porque ele não deve fazer isso – afinal, também pode ser só falta de informação. Poucos são os males que as pessoas causam com consciência, então de nada adianta ficar irritado e desprezar essa atitude – é muito mais válido dar um toque, quando houver a oportunidade.

No geral, portanto, a regra é: tenha consideração, respeito e consciência. Basta olhar para o lado, se colocar no lugar de quem mora onde você está de passagem, e perceber as necessidades do lugar. Se tiver dúvida sobre alguma atividade, pesquise. Dá para ir mais a fundo, pesquisando quais são os maiores problemas daquela cidade ou país e ficar mais atento a eles, e dá ainda para fazer trabalho voluntário – um conceito cada vez mais comum em viajantes europeus, especialmente os alemães, que dedicam parte das suas férias para ensinar inglês, cuidar de animais, conscientizar e retribuir às comunidades que os acolhem, uma forma incrível de conhecer ainda mais de perto as pessoas e a cultura local.

Manu Pontual
Aquariana de corpo e alma, Manu é apaixonada por viagens. Fundou a Plot junto com o Rapha, e agora vive viajando - seja de verdade, fazendo roteiros para os nossos clientes, ou sonhando com os próximos destinos.